segunda-feira, 18 de maio de 2009

Quase Memórias




9 – A guerrilha

A manhã começava um pouco mais amena e os dois viajantes sentiram-se mais reconfortados. Pouco haviam dormido e o rosto não escondia a preocupação. Não sabiam onde estavam e o que fazer. As casas indicadas pelo Manolo nem vê-las. Comeram um bocado do pão que lhes restava mas a angústia era bem visível e sentiam um nó na garganta pelo que o pão, já velho e amolecido pela humidade, lhes custava a engolir.
Olharam-se e com uma mistura de desânimo medo e raiva por terem sido traídos e tomaram a decisão de voltar para casa. Não foram precisas palavras. Sabiam que lhes não restava outro caminho.
Mas não seria fácil, pois não conheciam o local onde se encontravam e para que lado deviam marchar.
Pelo sim e pelo não, disse o António, vamos levantar poiso o mais rápido possível, atravessar o pinhal, subir aquele monte para ver se nos orientamos. Temos de nos afastar deste local porque ele foi um dos indicados pelo sacana do espanhol e podemos cair nalguma emboscada .Quando saíram da barraca improvisada vislumbraram por entre as nuvens alguns leves raios de sol. Era um sol envergonhado mas foi o suficiente para perceberam que para voltar para casa tinham de andar na direcção contrária.
Os pedaços de pão que antes não conseguiam tolerar pareciam agora mais agradáveis de mastigar. Precisavam de energia para a caminhada. E embrenharam-se no pinhal, cheios de determinação, rezando para que as nuvens não lhes impedissem o sentido de orientação que haviam definido. De início a caminhada não era difícil. Porém em dado momento e já tinham marchado uns bons quilómetros o pinhal foi substituido por matagal e começaram a subir um monte. A visibilidade voltou a cair e não se apercebiam de nada que lhes fosse familiar. Continuaram a subir tentando manter o mesmo rumo mas as pernas começarem a fraquejar pois o caminho pelo meio do mato era feito tropeçando em pedras, árvores caídas. silvados e declives. A vegetação densa foi substituída por tufos que emergiam do meio de pedregulhos. Olharam um para o outro e disseram ao mesmo tempo: estamos lixados devemos estar a subir as abas da serra onde o bandido do Manolo nos disse que havia guerrilheiros ou soldados. Vamos redobrar a atenção.
O António parou, deitou-se no chão atrás de uns tufos e fez um sinal para o irmão se calar e apurou o ouvido, encostando-o ao solo. Parecia-lhe ouvir barulhos estranhos não muito longe do local onde se encontravam. Podem ser lobos ou soldados, pensava com os botões. Esconderam-se ainda mais mas no movimento fizeram escorregar uma pedra que rolou alguns metros pela encosta. De repente o ruído que haviam detectado parou e o silêncio naquele entardecer sombrio tornou-se pesado como chumbo.
Sentiram alguns passos bem perto e uma voz que naquele linguajar a que se iam habituando chamava alguém dizendo: vem eles estão aqui. A pressão do cano de uma espingarda nas costas fê-los temer o pior. O outro vulto chegou perto, fez com a espingarda um sinal para se levantarem, e murmurou: Marchem na nossa frente com os braços levantados e não tentem fugir pois abriremos fogo.
E lá seguiram em fila, um dos desconhecidos na frente, os dois irmãos no meio e o outro a fechar a coluna. E andaram, subiram e desceram por um emaranhado de mato e pedras e por um trilho que mal se via.
Estavam quase esgotados quando o grupo parou. Ouviram um assobio e de seguida mais dois semelhantes, era com certeza um sinal, pensaram, avançaram mais alguns metros e chegaram a uma pequena clareira entre uns montões de pedras e de mato. O guia fez-lhes sinal para se sentarem. Quando iam recobrando a energia, começaram a tentar ver o que se passava em redor. À frente viram uma gruta cavada na rocha onde crepitava uma pequena fogueira com duas ou três pessoas sentadas à volta. Do outro lado umas barracas meio escondidas e disfarçadas com ramos de pinheiro.
J.Ariemal
(continua)

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