sexta-feira, 15 de maio de 2009

Quase Memórias



5 - Eu sei,eu vi, eu estive lá

E continuou. Já se ouviam os tiros de metralhadora dos carros de combate da legião e os gritos de guerra dos mouros. A resistência que alguns milhares, poucos, de populares mal armados e desorganizados onde eu me enquadrei, foi de pouca dura. Mas não houve rendição. Cada um lutou com o que tinha. O Paco que andava sempre comigo foi ferido. Procuramos o consultório do Pai e nada encontramos a não ser ruínas calcinadas e ainda fumegantes do que outrora fora uma casa. Conseguimos fugir pela fronteira do Caia e eu arrastando a perna ferida, levei o Paco para o Hospital de Elvas a fim de ser tratado. Continuei a fugir evitando a Guarda Portuguesa e escondi-me numas casa abandonadas encostadas às antigas muralhas da cidade. Passados alguns dias fui ao hospital em busca do amigo, de quem não encontrei, nem sinal. Perguntei e um velho conhecido e ele disse-me: Não procures mais. A polícia entrou no hospital, mandou despir os feridos e todos aqueles que apresentavam nos ombros marcas de uso de espingarda, foram entregues aos rebeldes e deles mais nada se soube.
Decidi voltar a Badajoz para saber notícias dos meus amigos. Cocheando e esfarrapado não dei nas vistas. Guiado pelo choro das mulheres e crianças que fui encontrando vagueando sem destino, entrei na praça de touros.
Novo silêncio.
E vi. Centenas, milhares de corpos de homens, mulheres e crianças que enchiam a arena os curros as bancadas. Caídos aos molhos, braços entrelaçados na hora da morte, um cheiro a pólvora e sangue. Uma imagem tão terrível que me fez estremecer de nojo, de revolta e de desejo de vingança. Foi uma cena que não mais me deixou dormir em paz e me acompanhará pelo resto da vida. Sim eu vi os corpos massacrados e assisti à pilhagem de um grupo de soldados marroquinos arrancando dos cadáveres tudo o que lhes parecia ter valor. Vi quebrarem os maxilares para retirarem capas de ouro dos dentes, vi-os cortar dedos para roubarem as alianças, vi-os descalçar e despir os mortos. Sim eu vi tudo isso.
Ao mesmo tempo camionetas de caixa aberta, partiam atulhadas de corpos, alguns ainda com sinais de vida e voltavam vazias para nova viagem até à vala comum, ali logo nos arredores.
Escondi-me no meio dum grupo de cadáveres empilhados e vi que dois legionários esmagavam a cabeça de um homem e que o lançavam para a camioneta. Esse homem era o Dr. Gonzalez.
Soltei um grito de raiva e dor e corri na direcção dos legionários. Deram-me com a coronha das espingardas e só recobrei o conhecimento quando, dentro da vala comum, senti a terra e as pedras que os improvisados coveiros lançavam sobre aquele amontoado de corpos. Rastejei, saí do buraco e sabe-se lá como consegui esconder-me numas moitas ali bem perto. Ao cair da noite fugi, corri, chorei, gritei de raiva , arrastei-me pelas silvas, pelo mato, por caminhos pedregosos que marcava com o meu sangue. Atravessei um ribeiro meio seco, caí e não me lembro de mais nada. Quando acordei estava do lado de cá da fronteira, deitado numa tarimba em casa de uns pastores que me trataram como sabiam e podiam e sem nada perguntarem.
É verdade, tudo o que vos contei é verdade, porque eu sei, porque eu vi e estive lá.
Novamente o silêncio. O Guilherme tinha o olhar fixo na parede onde uma pequena janela deixava passar os últimos raios de luz dum dia invernoso. O rosto crispado, tenso, com um rictus de dor de sofrimento e ao mesmo tempo de determinação. Aquele homem que vivera tamanha tragédia não queria entregar-se. Ainda tinha força para lutar.
O dois irmãos levantaram-se, atiçaram o lume e pegando numa brasa acenderam os cigarros enrolados pacientemmente enquanto ouviam a narrativa. Olharam-se e encolheram os ombros. O mais afoito dirigiu-se ao narrador, deu-lhe uma palmada no ombro e disse:
É uma história muito triste a que nos contou. Mas só não percebemos em que podemos ajudar. Somos uns pobres camponeses, não temos nada para lhe dar senão um pouco do nosso tempo.
O Guilherme estremeceu como se saísse dum pesadelo e sussurrou: A vosssa ajuda e pela qual eu posso pagar não exige heróismo mas tem um pouco de aventura. Trata-se de passar a fronteira como dois vulgares contrabandistas e de irem buscar os filhos mais novos do meu amigo Dr.Gonzalez. A mãe das crianças já morreu, o filho mais velho não se sabe por onde anda e se ainda combate ou já morreu. As crianças têm 7 e 12 anos e vivem quase sózinhas na casa onde se enconderam.
Têm familiares em Portugal que me procuraram e pediram para as ir buscar já que eles estão de partida para o México e pretendem que as crianças os acompanhem. Mas como vêm pelo estado da minha perna inútil eu não consigo.
E lembrei-me de vocês para fazerem a viagem. Não são políticamente envolvidos e sendo pobres não admirará, caso sejam apanhados, que passem por uns simples camponeses tentando ganhar uns cobres com o contrabando.
Mas senhor Guilherme nós nem dinheiro temos para comprar café, ovos ou qualquer outro produto para ir vender a Espanha, disse o António.
Não se preocupem. Vejam os sacos que estão atrás da porta e lá encontrarão dez embalagens de meio kilo de café em cada um, devidamente protegidas por mor da chuva e do cheiro. O que conseguirem ganhar com a venda será também vosso.
Se aceitarem terão de partir ainda esta noite de modo a que passsem a fronteira por volta da meia noite, dado que quer os Guardas Fiscais como a Guarda Civil devem estar ceando. Está uma noite escura, de chuva constante e nevoeiro cerrado e sabendo o caminho não vos será difícil chegar ao local de encontro que vos indicarei. Passarão o dia de Natal escondidos com as crianças e voltarão, por outro caminho logo que se faça noite e antes do jantar.
Virão ter aqui comigo que me encarregarei das crianças até que os familiares as venham buscar.
O que dizem? Posso contar com vocês?
A pobreza justifica que corramos alguns riscos, dizem os irmãos, mas tem que nos indicar os melhores caminhos e os contactos.
Sim, não se preocupem, tenho tudo estudado e darvos-ei todas as informações.
J.Ariemal
(continua)





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