segunda-feira, 11 de maio de 2009

Quase Memórias


2 – O comunista

Numa casa velha e escura, perdida no meio dos pinheiros foram encontrar o tal Guilherme. Estava sentado a uma mesa, capote pelas costas, boné enfiado na cabeça, sorvendo dum copo de barro, pequenos goles do que pelo cheiro perceberam ser aguardente. Esfregaram as mãos enregeladas, olhando gulosamente para a garrafa em cima da mesa.
Então Senhor Guilherme, aqui estou eu e o meu irmão Xico, para que nos fale do tal negócio, disse o irmão mais novo.
Sem levantar os olhos fixados nas mãos descarnadas e escuras como a casa, respondeu, ajeitando a perna inútil que tinha apoiada numa bengala: Puxem dum banco e do tropeço, sentem-se e tomem um gole de aguardente para ajudar a matar as mágoas e a suportar o frio. Depois falaremos.
Os dois irmãos, candidatos a aventureiros, hesitaram, olharam um para o outro e com um encolher de ombros lá se sentaram e partilharam um pouco de bebida. Passaram alguns momentos em silêncio, que para os visitantes pareceram uma eternidade, até que o dono da casa levantou os olhos e disse:
Antes de falar da proposta, gostava de vos fazer algumas perguntas.
Pois ande lá responderam os irmãos cada vez mais desconfortáveis.
Vocês já ouviram falar de mim? Sabem porque vivo nesta casa abarracada longe dos caminhos e das pessoas?
Ouvimos umas palavras por aqui e por ali. Diziam que o senhor é um comunista e bombista, fugido à polícia e que por isso não era aconselhável ser visto consigo não fosse o diabo tecê-las. Pois, e mesmo assim estão dispostos a fazer o trabalho?
Depende, disse o irmão mais velho e desconfiado. Mas nada podemos dizer sem saber o que quer de nós.
Então para perceberem melhor o que vos vou pedir, vou-vos contar parte da minha vida.
Nasci há cerca de 50 anos, numa pequena aldeia ali para os lados de Elvas, filho único de um professor primário. Estudei em Lisboa onde frequentei, até ao 4º. Ano a Faculdade de Direito. Boquiabertos os irmãos não puderam deixar de comentar – Só tem cinquenta anos? O senhor parece muito mais velho, desculpe lá o mau jeito.
Não faz mal. Toda a gente tem dificuldade em aceitar mas é verdade. As feridas no corpo e na alma, as perseguições, as desventuras e desgostos deixaram as suas marcas neste corpo outrora vigoroso e forte.
Quando da implantação da República, tinha eu acabado de fazer 24 anos, era um seguidor atento das teses revolucionárias e foi com grande esperança que lutei ao lado dos republicanos. Depresssa o desencanto se apoderou de mim, dado o falhanço rotundo dos Governos que se seguiram. O meu Pai que era um fervoroso adepto do Afonso Costa, via nele a figura dum novo Marquês de Pombal, bem me tentava convencer que, mais tarde ou mais cedo a agitação política iria acalmar e a democracia, autêntica, iria ser uma constante permitindo a liberdade a justiça o desenvolvimento dum povo quase por inteiro analfabeto. Mais, quando se dá na Rússia a Revolução de Outubro passei a acreditar que o futuro seria baseado numa democracia socialista cabendo aos trabalhadores o verdadeiro papel. Seria assim “de cada um segundo a sua capacidade a cada um segundo a sua necessidade”. Aderi de corpo e alma a estas ideias tão certas quanto, sei agora, utópicas
Fui mobilizado para o exército e enviado como tenente de uma Companhia de soldados esfarrapados, famintos e mal armados para combater a máquina alemã na frente da Flandres. Vi morrer quase todos os que me acompanharam e quando o armísticio foi declarado e se alcançou a Paz, regressei a Portugal e à velha casa, vazia, pois quer o meu Pai quer a minha Mãe tinham, entretanto,falecido.
O narrador fez uma pausa, olhou para os dois irmãos e disse: vocês devem estar a pensar o que é que isto tem a ver com o negócio que aqui nos trouxe. Tem tudo e talvez nada, mas tenham paciência bebam mais um copo e deixem este velho desfilar as suas memórias. Depois lá chegaremos.
Como vocês sabem, em 1928, em consequência de um golpe de estado o Salazar tomou o poder tratando o País como se fosse uma coutada e ele o encarregado. Por isso me tornei comunista, fui preso, torturado para denunciar camaradas e passei três anos nos calabouços sem nunca ter sido julgado. Quando saí trazia agarrado à pele o rótulo de bombista e comunista e todas as portas se me fecharam. Regressei à minha velha casa no Alentejo, donde não tirava grande sustento mas ia dando para sobreviver.
Formei o meu ideário político lendo os clássicos, e textos do Capital de Karl Marx e outros textos de Lenine. Não se esqueçam que a revolução na Rússia era relativamente recente e exerceu um fascínio para os jovens como eu. Daí dizerem, com alguma verdade que eu sou comunista. Onde ia e passava toda a gente dizia, alguns com admiração, outros com ódio, ali vai o Comunista.
J.Ariemal
Fim do segundo capítulo

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