segunda-feira, 18 de maio de 2009

Quase Memórias



8 - Traídos



Saltaram o muro, pararam à escuta e começaram a marcha, lenta e cuidada. Como o Manolo lhes havia dito não viram ninguém e a povoação ficava já perdida no horizonte.
A chuva recomeçou trazendo com ela o nevoeiro e o frio. Pararam por momentos e praguejaram, maldito tempo. Do mal o menos diz o irmão mais novo. Quanto pior estiver o tempo menos possibilidade haverá de sermos vistos. Tens razão mas o frio chega-me aos ossos e parados parece mais cortante. Voltaram a caminhar e pensaram que já teria decorrido o tempo de marcha que lhes tinha sido dito. E estrada nem vê-la. Será que estamos a seguir o caminho certo, perguntou o Chico? Tem de ser esta a direcção e provávelmente o Manolo não tem relógio e não faz ideia do que é uma hora a andar.
Vamos andar até aquele amontoado de pedras que vês ali ao fundo e tentaremos localizar a estrada ou o pinhal.
Com todo o cuidado agacharam-se atrás do monte de pedras e espreitaram. Não viram nada do que esperavam mas chegou-lhes ao ouvido passos entrecortados com um ou outro gemido. Aguardaram um momento e com o coração prestes a saltar do peito atreveram-se a espreitar. No caminho seguia um grupo de refugiados, homens mulheres e crianças, acompanhado por guardas armados. Recolheram-se de imediato, sustiveram a respiração. Assim permaneceram tempo que parecia uma eternidade. Quando ganharam coragem voltaram a espreitar e só viram bem ao longe vultos indistintos. Respiraram fundo.
Desataram a correr atravessando aos saltos a estrada, embrenharam-se no matagal e só pararam quando sentiam que se tinham afastado o suficiente. Sentaram-se encostados a um grande pinheiro manso, recuperaram o fôlego e sem saber onde estavam e o que fazer.
Será que o Manolo nos enganou ? Eu nunca fui com a pinta dele e lá que ele se dá bem com os guardas isso eu vi. És capaz de ter razão mas agora estamos demasiado cansados para pensar o que fazer. vamos cortar umas giestas fazemos uma barraquita aqui debaixo do pinheiro e tentamos dormir. Estamos suficientemente afastados do caminho e não é provável haver gente nas proximidades pelo que poderemos até enrolar um cigarrito e dar umas fumaças. De manhã alinhavamos as coisas e decidimos o que fazer.

J.Ariemal

(continua)

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