
10 - Dolores
O guia chegou-se perto deles e por sinais fê-los levantar e caminhar na direcção da gruta. Era escuro mas pouco a pouco os olhos foram-se habituando àquela meia luz e puderam olhar e ver as pessoas que ali se encontravam.
Não seriam mais de seis ou sete e vestidos como os pastores. Respiraram de alívio. Do mal o menos estes devem ser guerrilheiros e não nos devem fazer mal.
O silêncio foi quebrado quando uma voz de mulher chama o guia e lhe diz. Vai chamar o Manuel.
Este era um homem de estatura meã, típico dos pastores da zona de fronteira, com safões e casacão de pele de ovelha e com uma espingarda caçadeira à tiracolo. Olhou para os dois irmãos e disse num português arrevesado. Dolores, estes dois devem ser do outro lado da fronteira e andam no contrabando.
Então a mulher levantou-se do local onde se encontrava sentada, pegou num toco de vela aceso, aproximou-se dos irmãos e olhou-os com atenção.
Deves ter razão, mas temos de saber o que andam a fazer por estes lados porque isto não é caminho de contrabandistas. Manuel tu ficas aqui enquanto esses dois nos vão contar ao que vêm e que querem e como aqui chegaram. Se houver algo que te pareça mentira, avisas. Mas primeiro e não vá o diabo tecê-las revista-os e abre os sacos que trazem. O Manuel revistou as roupas, encontrou apenas as notas molhadas escondidas no forro dos casacos,abriu os sacos e espalhou o seu recheio no chão. E deles só saíram dois bocados de pão e queijo bolorento embrulhados em farrapos de serapilheira.
Parece que além de cansados devem estar mortos de fome e de medo. Diz para se sentarem e comerem da nossa comida e depois quero que me contem tudo, principalmente porque trazem escondido o dinheiro e onde e como o arranjaram.
E assim fizeram. Falaram do disfarce do contrabando e do verdadeiro objectivo da viagem. Contaram o encontro com o Manolo, as indicações recebidas que estavam certos eram uma mentira, o caminho que seguiram até serem encontrados. Falaram do frio e da fome porque passaram na viagem e o desgosto que sentiam por não terem conseguido encontrar as crianças que a família procurava.
Fizeram uma pausa. Baixaram a cabeça em sinal de desânimo e uma lágrima furtiva escorreu pela face curtida daqueles dois homens.
A mulher ouviu com atenção e perguntou, e agora o que tencionam fazer?
Por muito que nos custe queremos voltar para casa, para junto da família que não vemos há mais de três dias.
Quer dizer que vão esquecer a promessa que fizeram ao vosso amigo?
Isso é o que mais nos custa mas na verdade não temos como continuar a procura pois depois de tantas voltas, já nem o caminho para casa somos capazes de encontrar.
E se eu os ajudar a encontrar as crianças? Vocês estão na disposição de fazer mais algum sacrifício e até de correrem riscos?
O António olhou para o irmão, ergueu os ombros e com um novo brilho nos olhos disse Sim, estamos.
A mulher fixa o olhar no vazio e falando com a voz sumida diz. O meu nome é Dolores.Também eu perdi os meus Pais o meu marido e dois filhos. Sei o que isso é. Fui professora e ensinei muitos camponeses a ler e a escrever. Isso traçou o meu destino. Tinha de ser morta. Fugi, ajudada por amigos e as tropas do tércio vingaram-se chacinando os meus familiares
Com este pequeno grupo escondemo-nos na serra e daqui continuamos a luta contra os fascistas do Franco. Vamos fazendo umas emboscadas, aqui e ali, atacando pelotões da tropa e da guarda civil sempre que reunimos informações que nos dêm a vantagem da surpresa. De vez em quando descemos em grupo de dois ou três a uma das aldeias mais próximas para arranjar comida e informações. Armas não nos faltam e munições também não.
Temos um aliado muito forte que é a nossa vontade de resistir e esta serra inóspita dá-nos refúgio. Mas sabemos que os franquistas sabem onde nos encontramos pelo que só aqui nos manteremos enquanto houver segurança. Isolados não conseguiremos nada a não ser incomodar o inimigo e por isso temos como objectivo romper as linhas e juntar-mo-nos aos nossos camaradas na defesa de Madrid.
Nós suspeitamos que o Manolo a que vocês se referiram é um informador e que já enganou muita gente. Por medo ou convicção alguns soldados que desertaram para se juntar aos guerrilheiros foram atraídos por ele a uma emboscada e nunca mais deles soubemos.
Eu sou natural de Benavente. Quando da minha última sortida à povoação, estadia bem curta porque ela estava cheia de legionários, encontrei a minha irmã que me disse ter recolhido duas crianças qua andavam na rua sem eira nem beira. Devem ser sem dúvida as crianças que vocês procuram.
Posso, portanto, ajudar-vos mas têm de confiar em mim e fazer as coisas como eu disser.
Acenaram que sim.
J.Ariemal
(continua)
Acenaram que sim.
J.Ariemal
(continua)

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