
7 – Encontros e desencontros
Sentaram-se à lareira e deixaram que o calor lhes aquecesse o corpo e a alma. Despiram as velhas samarras, descalçaram as botas encharcadas e entregaram ao Manolo os sacos contendo o café. Este recebeu-os e sem palavras levou-os para outro compartimento. Ouviu-se um ranger de tábuas. Espreitaram e viram o Manolo que escondia os sacos de café num buraco do soalho. Este reentrou, entregou-lhes um maço de notas velhas e amarrotadas dizendo aqui têm a paga da encomenda. Dividam entre vocês e escondam bem pois podem vir a ser detidos, revistados e vão ter dificuldade em justificar o dinheiro. Assim fizeram. Abriram o forro das samarras e com o alfinete que segurava o forro prenderam as notas o melhor que puderam.
Estive a cozer uns feijões. Aqui têm um prato e uma colher, sirvam-se da panela.
Depois conversamos. E saiu para a rua.
Conversar diz o Xico pelo canto da boca. Como é que vai ser se nós mal o entendemos? Não te preocupes alguma coisa havemos de perceber. Afinal a maneira de falar dele não é assim tão diferente da que conhecemos aos contrabandistas. Sim mas há nele qualquer coisa que não me agrada, mas não sei o quê.
Enquanto os dois viajantes engoliam a parca refeição o Manolo reentrou pegou num pau com que espalhou as cinzas da lareira.
Olhem com atenção. Aqui, e marcou com uma cruz na cinza é onde nós estamos. Traçou uma linha voltou a marcar uma cruz e disse e para aqui é que vamos, não tarda. É uma aldeia chamada La Jola onde vou entregar um carregamento de lenha para o forno da padaria local. Antes de lá chegar passamos por uma igreja em ruínas. Saltem um pequeno muro e escondam-se. Não há casas habitadas na proximidade e por isso não é costume ver pessoas. Seguem esse muro, para a vossa direita, acompanhou com novo risco e mais ou menos duas hora de marcha normal encontrarão uma estrada de terra batida que devem atravessar. Com cuidado pois a estrada já tem algum movimento de pessoas.
Não se deixem ver. Depois de atravessada a estrada, entram num pinhal e sobem nesta direcção, novo risco.
A marcha deverá demorar cerca de uma hora sempre na orla do pinhal. Verão depois uma aldeia meio destruída. Lá encontrarão o Alonso que será o vosso contacto.
O Alonso é um homem de poucas palavras mas é de confiança. Dizem que vão da minha parte ele sabe o que isso quer dizer e levá-los-á ao local onde estão escondidas as crianças que procuram.
Peçam-lhe para vos aconselhar o melhor caminho na direcção da fronteira. Podem ter de fazer um grande desvio mas nem sempre o melhor caminho é o mais curto. Há meia dúzia de dias, um grupo pequeno de resistentes que se refugiam nas fraldas da serra, emboscaram uma viatura militar e roubaram as armas e munições que ela transportava pelo que haverá mais vigilância não só da guarda civil mas também de falangistas armados. Essa parte da viagem é por isso a mais perigosa. Façam-na de noite ou pela madrugada.
Entendido?
Como vos disse vou entregar um carregamento de lenha. A carroça já está preparada é só atrelar o burrito e aí vamos nós. Tu, disse para o irmão mais novo, escondes-te no meio da carga entre os ramos de esteva e de giesta e tu segues comigo como se fosses meu ajudante. Tens um aspecto mais parecido com os trabalhadores locais e por isso passarás sem levantar suspeitas. Se alguém se cruzar no caminho resmungas qualquer coisa que não se entenda e eu direi que tu és assim meio atrasado.
Então como está tudo percebido vamos pôr a carroça no caminho.
Pachorrentamente o burrito lá ia puxando a carga por uma caminho de terra que serpenteava no meio de campos pedregosos, com pequenos declives. Era um andar compassado e dormente que convidava a fechar os olhos. O Xico sentiu um toque no ombro despertou e o Manolo disse-lhe num sussurro. Atenção, além ,depois da curva estão dois guardas escondidos. Não te preocupes, faz como eu te disse e tudo vai correr bem Eu já sei o que eles querem.
Quando se aproximaram um dos guardas postou-se em frente da carroça mas com a arma à tiracolo enquanto o outro dava uma mirada em redor.
Ola Manolo buenos dias. Buenos dias senhor respondeu este. E antes que a conversa continuasse o Manolo pegou num saco que tinha junto aos pés e entregou-o ao guarda.
Este espreitou, esboçou um sorriso e disse. Esta tudo bem podem seguir, afastando-se para a berma do caminho.
O condutor deu um toque com uma varita no lombo da besta e esta arrancou afastando-se lentamente do local do encontro.
Quando dobraram a curva o Xico olhou para o Manolo e com um sinal de cabeça perguntou, meio desconfiado, o que se tinha passado. Manolo disse entre dentes. Os guardas também passam dificuldades e os sacos de café que lhes dei vão fazer-lhes muito jeito.
Continuaram a marcha e passavam perto dumas ruínas. O Manolo olhou em redor, parou a carroça e disse. é agora, chama o teu irmão saltem aquele muro desapareçam e boa sorte.
Sentaram-se à lareira e deixaram que o calor lhes aquecesse o corpo e a alma. Despiram as velhas samarras, descalçaram as botas encharcadas e entregaram ao Manolo os sacos contendo o café. Este recebeu-os e sem palavras levou-os para outro compartimento. Ouviu-se um ranger de tábuas. Espreitaram e viram o Manolo que escondia os sacos de café num buraco do soalho. Este reentrou, entregou-lhes um maço de notas velhas e amarrotadas dizendo aqui têm a paga da encomenda. Dividam entre vocês e escondam bem pois podem vir a ser detidos, revistados e vão ter dificuldade em justificar o dinheiro. Assim fizeram. Abriram o forro das samarras e com o alfinete que segurava o forro prenderam as notas o melhor que puderam.
Estive a cozer uns feijões. Aqui têm um prato e uma colher, sirvam-se da panela.
Depois conversamos. E saiu para a rua.
Conversar diz o Xico pelo canto da boca. Como é que vai ser se nós mal o entendemos? Não te preocupes alguma coisa havemos de perceber. Afinal a maneira de falar dele não é assim tão diferente da que conhecemos aos contrabandistas. Sim mas há nele qualquer coisa que não me agrada, mas não sei o quê.
Enquanto os dois viajantes engoliam a parca refeição o Manolo reentrou pegou num pau com que espalhou as cinzas da lareira.
Olhem com atenção. Aqui, e marcou com uma cruz na cinza é onde nós estamos. Traçou uma linha voltou a marcar uma cruz e disse e para aqui é que vamos, não tarda. É uma aldeia chamada La Jola onde vou entregar um carregamento de lenha para o forno da padaria local. Antes de lá chegar passamos por uma igreja em ruínas. Saltem um pequeno muro e escondam-se. Não há casas habitadas na proximidade e por isso não é costume ver pessoas. Seguem esse muro, para a vossa direita, acompanhou com novo risco e mais ou menos duas hora de marcha normal encontrarão uma estrada de terra batida que devem atravessar. Com cuidado pois a estrada já tem algum movimento de pessoas.
Não se deixem ver. Depois de atravessada a estrada, entram num pinhal e sobem nesta direcção, novo risco.
A marcha deverá demorar cerca de uma hora sempre na orla do pinhal. Verão depois uma aldeia meio destruída. Lá encontrarão o Alonso que será o vosso contacto.
O Alonso é um homem de poucas palavras mas é de confiança. Dizem que vão da minha parte ele sabe o que isso quer dizer e levá-los-á ao local onde estão escondidas as crianças que procuram.
Peçam-lhe para vos aconselhar o melhor caminho na direcção da fronteira. Podem ter de fazer um grande desvio mas nem sempre o melhor caminho é o mais curto. Há meia dúzia de dias, um grupo pequeno de resistentes que se refugiam nas fraldas da serra, emboscaram uma viatura militar e roubaram as armas e munições que ela transportava pelo que haverá mais vigilância não só da guarda civil mas também de falangistas armados. Essa parte da viagem é por isso a mais perigosa. Façam-na de noite ou pela madrugada.
Entendido?
Como vos disse vou entregar um carregamento de lenha. A carroça já está preparada é só atrelar o burrito e aí vamos nós. Tu, disse para o irmão mais novo, escondes-te no meio da carga entre os ramos de esteva e de giesta e tu segues comigo como se fosses meu ajudante. Tens um aspecto mais parecido com os trabalhadores locais e por isso passarás sem levantar suspeitas. Se alguém se cruzar no caminho resmungas qualquer coisa que não se entenda e eu direi que tu és assim meio atrasado.
Então como está tudo percebido vamos pôr a carroça no caminho.
Pachorrentamente o burrito lá ia puxando a carga por uma caminho de terra que serpenteava no meio de campos pedregosos, com pequenos declives. Era um andar compassado e dormente que convidava a fechar os olhos. O Xico sentiu um toque no ombro despertou e o Manolo disse-lhe num sussurro. Atenção, além ,depois da curva estão dois guardas escondidos. Não te preocupes, faz como eu te disse e tudo vai correr bem Eu já sei o que eles querem.
Quando se aproximaram um dos guardas postou-se em frente da carroça mas com a arma à tiracolo enquanto o outro dava uma mirada em redor.
Ola Manolo buenos dias. Buenos dias senhor respondeu este. E antes que a conversa continuasse o Manolo pegou num saco que tinha junto aos pés e entregou-o ao guarda.
Este espreitou, esboçou um sorriso e disse. Esta tudo bem podem seguir, afastando-se para a berma do caminho.
O condutor deu um toque com uma varita no lombo da besta e esta arrancou afastando-se lentamente do local do encontro.
Quando dobraram a curva o Xico olhou para o Manolo e com um sinal de cabeça perguntou, meio desconfiado, o que se tinha passado. Manolo disse entre dentes. Os guardas também passam dificuldades e os sacos de café que lhes dei vão fazer-lhes muito jeito.
Continuaram a marcha e passavam perto dumas ruínas. O Manolo olhou em redor, parou a carroça e disse. é agora, chama o teu irmão saltem aquele muro desapareçam e boa sorte.
J.Ariemal
(continua)

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