4 - ResistênciaApesar do avanço dos revoltosos pelo sul e pelo norte, eu acredito que a República, com o apoio dos outras democracias ocidentais acabará por vencer.
Pobre Dr. Gongalez como ele se enganou.
Pela minha parte e pensando mais com a alma do que com a cabeça, juntei-me a um grupo de portugueses aventureiros e como tinha experiência da guerra, comandei o melhor que pude esse grupo, atravessamos a salto a fronteira e assaltamos um quartel da Guarda Civil em Zafra para obtermos armas. E lá fomos para a serra para enfrentar o avanço da legião e dos soldados marroquinos que os acompanhavam.
Não havia comando unificado pelo que a resistência foi recuando de posição em posição, sofrendo mortos e feridos sem conta. Outros desencantados abandonaram as armas e pela calada da noite regressaram a suas casas. Vi-me a comandar um pequeno grupo, não mais de 20 homens, constituido por jovens idealistas e camponeses duros. Numa emboscada que fizemos fui atingido por estilhaços de granada que me deixaram a perna quase desfeita. Esta perna quase inútil, que agora não tem nem força para andar quanto mais para me ajudar a suportar o peso das minhas mágoas.
Os meus companheiros carregaram-me às costas, debaixo de fogo e retiraram para Badajoz. Deixaram-se em casa do meu amigo médico e voltaram para a frente de combate. Nunca mais os vi ou ouvi falar deles.
Quando no inicio de agosto as tropas fascistas se aproximavam de Badajoz o Dr. Gonzalez reuniu a família e como eu estava em casa dele pude assistir à reunião.
Disse-nos, com o rosto vincado por linhas de preocupação e a voz trémula e insegura:
Apesar da boa vontade das populações que se têm mantido fiéis à República, os revoltosos, beneficiando do apoio efectivo dos fascista italianos e do regime de Hitler irão vencer esta luta fraticida e como fizeram em Sevilha vão massacrar todos os que se opuserem à sua marcha. Por sua vez a República foi lançada ao ostracismo pelos países ocidentais que através do manhoso acordo de não intervenção irão dificultar ou impedir qualquer rearmamento do exército republicano. Os partidos políticos do regime republicano guerreiam-se entre si e não conseguem definir uma estratégia conjunta para fazer face aos avanços fascistas.
Assim e temendo o pior decidi:
Os meus filhos, a Pilar, a Aparecida e o Paco irão com a mãe para uma quinta que os avós têm nos arredores de Cáceres e lá ficarão até que a situação permita o seu regresso. Eu fico. Não fugirei e continuarei a dar assistência aos feridos e aos doentes. Tu Guilherme deves regressar ao teu País e o mais breve possível. Se um dia a minha família precisar, eu sei e eles sabem, que podem contar com a tua ajuda.
Um silêncio de dor e desespero, lágrimas correndo como um rio foi o cenário que as palavras do médico trouxeram aquela casa.
De repente Paco, o filho mais velho, levantou-se, encarou o Pai e disse sem vacilar: Eu não fugirei. Tenho dezoito anos e ficarei ao lado do meu Pai e se for preciso juntar-me-ei às milícias camponesas que enfrentam os fascistas. Sim, é isso que farei, por minha única vontade e desta posição não abdicarei. Lutarei até ao fim.
Pobre Dr. Gongalez como ele se enganou.
Pela minha parte e pensando mais com a alma do que com a cabeça, juntei-me a um grupo de portugueses aventureiros e como tinha experiência da guerra, comandei o melhor que pude esse grupo, atravessamos a salto a fronteira e assaltamos um quartel da Guarda Civil em Zafra para obtermos armas. E lá fomos para a serra para enfrentar o avanço da legião e dos soldados marroquinos que os acompanhavam.
Não havia comando unificado pelo que a resistência foi recuando de posição em posição, sofrendo mortos e feridos sem conta. Outros desencantados abandonaram as armas e pela calada da noite regressaram a suas casas. Vi-me a comandar um pequeno grupo, não mais de 20 homens, constituido por jovens idealistas e camponeses duros. Numa emboscada que fizemos fui atingido por estilhaços de granada que me deixaram a perna quase desfeita. Esta perna quase inútil, que agora não tem nem força para andar quanto mais para me ajudar a suportar o peso das minhas mágoas.
Os meus companheiros carregaram-me às costas, debaixo de fogo e retiraram para Badajoz. Deixaram-se em casa do meu amigo médico e voltaram para a frente de combate. Nunca mais os vi ou ouvi falar deles.
Quando no inicio de agosto as tropas fascistas se aproximavam de Badajoz o Dr. Gonzalez reuniu a família e como eu estava em casa dele pude assistir à reunião.
Disse-nos, com o rosto vincado por linhas de preocupação e a voz trémula e insegura:
Apesar da boa vontade das populações que se têm mantido fiéis à República, os revoltosos, beneficiando do apoio efectivo dos fascista italianos e do regime de Hitler irão vencer esta luta fraticida e como fizeram em Sevilha vão massacrar todos os que se opuserem à sua marcha. Por sua vez a República foi lançada ao ostracismo pelos países ocidentais que através do manhoso acordo de não intervenção irão dificultar ou impedir qualquer rearmamento do exército republicano. Os partidos políticos do regime republicano guerreiam-se entre si e não conseguem definir uma estratégia conjunta para fazer face aos avanços fascistas.
Assim e temendo o pior decidi:
Os meus filhos, a Pilar, a Aparecida e o Paco irão com a mãe para uma quinta que os avós têm nos arredores de Cáceres e lá ficarão até que a situação permita o seu regresso. Eu fico. Não fugirei e continuarei a dar assistência aos feridos e aos doentes. Tu Guilherme deves regressar ao teu País e o mais breve possível. Se um dia a minha família precisar, eu sei e eles sabem, que podem contar com a tua ajuda.
Um silêncio de dor e desespero, lágrimas correndo como um rio foi o cenário que as palavras do médico trouxeram aquela casa.
De repente Paco, o filho mais velho, levantou-se, encarou o Pai e disse sem vacilar: Eu não fugirei. Tenho dezoito anos e ficarei ao lado do meu Pai e se for preciso juntar-me-ei às milícias camponesas que enfrentam os fascistas. Sim, é isso que farei, por minha única vontade e desta posição não abdicarei. Lutarei até ao fim.
Quase sem me aperceber das consequências mas levado pelos sentimentos de amizade, levantei-me e disse: Não tenho outra família que não seja a vossa. Voltar significará prisão. Por isso ficarei. Custe o que custar e que a força da razão e os ideais da liberdade nos ajudem.
E assim se fez.
Mais um pesado silêncio caiu sobre o casebre. O Guilherme baixou a cabeça deixou cair os braços ao longo do corpo como se o relembrar daqueles momentos tivesse reaberto as chagas e consumido as últimas energias.
Com voz trémula e sussurrada, como que com medo de ouvir a resposta, os irmãos perguntaram, e depois?
Bem, depois foi a tragédia. Eu sei, eu vi, eu estive lá.
J.Ariemal
E assim se fez.
Mais um pesado silêncio caiu sobre o casebre. O Guilherme baixou a cabeça deixou cair os braços ao longo do corpo como se o relembrar daqueles momentos tivesse reaberto as chagas e consumido as últimas energias.
Com voz trémula e sussurrada, como que com medo de ouvir a resposta, os irmãos perguntaram, e depois?
Bem, depois foi a tragédia. Eu sei, eu vi, eu estive lá.
J.Ariemal
(Continua)

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