
6 – A aventura
Escorregando aqui e ali na caruma molhada dos pinheiros os dois irmãos lá iam seguindo um trilho abandonado que serpenteava serra acima. Seguim curvados protegendo-se do vento da chuva e do frio que naquela noite se faziam sentir. Seguiam afastados dois ou três metros um do outro porque mais não lhes permitia a visibilidade.
Era já noite cerrada quando exaustos pela subida em condições tão agrestes pararam, desviaram-se alguns passos do trilho e sentaram-se encostados aos penedos que pelo menos os protegiam do vento.
Sabiam que a descida para o ribeiro que servia de fronteira iria ser difícil. Deviam procurar seguir orientados apenas pelo hábito, fora dos caminhos e veredas para evitarem encontros inesperados.
Respiraram fundo, pegaram na trouxa e começaram a descer.
Devagar e segurando-se nos arbustros não conseguiam mesmo assim envitar algumas escorregadelas mais ou menos prolongadas. O que seguia na frente parou de repente, agachou-se e estendendo a mão ao irmão que o seguia apontou-lhe um vulto encostado ao tronco de uma árvore mais grossa. Estaria a não mais de dez metros. Ouviram tossicar e o riscar de um fósforo que iluminou por momentos o rosto de um guarda.
Com cuidados redobrados e em pequenos passos afastaram-se para o interior do pinhal e anicharam-se no meio de fetos. Ficaram em silêncio longos minutos. Quando se aperceberam que a sua presença não tinha sido detectada, levantaram-se e retomaram a marcha em sentido perpendicular ao local onde a guarda estava à espreita. Mais uns minutos de marcha e decidiram retomar a descida. O contacto entre os dois era feito por pequenos gestos, cúmplices de quem se conhecia como a palma da mão. Voltaram a parar a meio da encosta e esconderam-se no matagal. Tinham ouvido alguns assobios muito curtos e calcularam que eram os contrabandistas a avisarem-se entre si da emboscada.
Assim estiveram atentos a movimentos ou ruídos suspeitos mas aperceberam-se que os sinais de aviso dos contrabandistas soavam cada vez mais distantes.
Continuando a descida, parando e aguçando os sentidos para ruídos ou movimentos estranhos chegaram perto de um muro de pedra, meio destruído atrás do qual se esconderam. Começava a haver alguma claridade pelo que espreitaram por cima do muro para identificar o lugar onde se encontravam. Não viam mais do que meia dúzia de metros mas imaginaram que estariam à beira do riacho, que corria entre canaviais e cujo saltitar de pedra em pedra era o sinal que se encontravam à beira do salto que os levaria para o outro lado da fronteira.
Num sussurro o Tonho segredou ao irmão: Desviamo-nos muito do nosso carreiro. Quando estivermos do outro lado temos de subir o riacho que se bem me lembro corre entre estes canaviais e teremos de o subir durante mais de uma hora. Para mim devemos ir pela margem do ribeiro abrigando-nos na vegetação e devemos caminhar com cuidado e afastados um do outro. Eu vou primeiro e tu segues deixando algum espaço entre nós. Quando eu parar e me agachar fazes o mesmo. Só saímos do ribeiro quando for altura de encontrar-mos a tal casa que o tio Guilherme nos indicou. Devemos fazer este percurso quando a lua estiver bem alta. As sombras serão nossas amigas e esconderão os nossos movimentos.
Não te esqueças que quando alcançarmos os arredores da casa te deves esconder o melhor que puderes e que só nela entraremos se virmos a alguma distãncia a luz duma candeia que o nosso contacto colocará na janela da casa. Se a não virmos é sinal que a guarda civil ou a tropa estão lá na quintarola ou perto. Mantemo-nos quietos até receber o sinal de luz.
Avança um e depois o outro. Se um for apanhado faz-se passar por um simples contrabandista, abandona o saco com o café e foge, se puder, na direcção da fronteira de volta para o nosso abrigo na serra. O outro esconde-se e retomará o contacto com o caseiro que vai indicar onde se encontram as crianças.
O Xico fez sinal com a cabeça que tudo estava entendido. Deixaram-se ir escorregando pela margem do ribeiro agarrando-se aos arbustros que o bordejavam até sentirem os pés na água. Largaram-se e ficaram enxarcados porque o ribeiro fazia um fundão e a água chegava-lhes às axilas. Fazia uma corrente forte pelo que a subida se ia fazendo a passo de caracol, ora com água pelos ombros ora com água pelos joelhos. Tiritavam de frio e sentiam-se exaustos. Pararam, voltaram a subir a margem do ribeiro e deitaram-se no meio da folhagem. Sem uma palavra olharam-se nos olhos e estiveram quase a desistir. Mas faltou-lhes a coragem. Cerraram os olhos para não deixar escapar alguma lágrima rebelde.
Passados alguns minutos, tremendo de frio e medo e com o corpo dorido, ouviram um galo cantar. Acordaram do torpor onde mergulharam, apuraram os sentidos e ouviram de novo o cantar do galo. Ganharam novo alento e sem palavras pressentiram que deviam estar perto da quinta que procuravam. Deixa-te ficar, disse o irmão mais novo, que eu vou avançar mais uns metros para ver o que nos espera. Se estivermos no caminho certo venho chamar-te.
Rastejou pelo canavial e passados alguns metros vislumbrou à luz da madrugada uma construção de pedra mas não conseguiu ver a luz de sinal. Rastejou de volta até ao irmão e segredou-lhe: Vi uma casa. Deve ser o que nos assinalaram. Depois de sair do canavial dou uma corrida e escondo-me junto à parede junto a um monte de mato que lhe está encostado. Conta até vinte e se não ouvires nada de suspeito faz o mesmo. Eu espero por ti.
Assim fizeram.
Abriram um espaço no monte de mato, que tapava um denso silvado e, mesmo sentindo os arranhões das silvas esconderam-se encostados um ao outro. Puxaram algum do mato para se protejerem do frio e de alguma visita inesperada.
O nevoeiro matinal começou pouco a pouco a esfumar-se, a visibilidade aumentou e sairam para espreitar. E lá vislumbraram uma luzita, bem trémula que parecia perder-se no meio do mato. Estavam no bom caminho e sentiram-se mais afoitos. Até aqui tudo correu bem, mas ainda falta o mais difícil. Havemos de conseguir murmurou o Chico.
Sendo o mais novo, mais afoito e mais esclarecido o Tonho tinha assumido a liderança. Disse para o irmão: daqui em diante temos de ter cautelas redobradas. Avançarei sempre em primeiro lugar, aguardarás por um sinal meu que será sempre aquele assobio meio soprado, e que apenas farei uma vez. Presta atenção e só avanças ao meu encontro se reconheceres o sinal. Se nada te soar dentro de quinze minutos, volta para trás e segue outro caminho. Ou procuras encontrar a quinta onde as crianças estão escondidas ou, o mais prudente volta para casa. Está bem, deixa-me lá ver se o meu cebola está a funcionar ou se o banho o estragou. Puxou do bolso do colete um velho relógio, ainda trabalhava e marcava seis horas da manhã. O Tonho acertou o seu relógio abraçou o irmão e partiu. Pé ante pé deu a volta à casa, parou junto a porta e escutou.
Lá dentro ouviu o mexer numa panela e sentiu o cheiro de fumo que se esgueirava pelas frinchas da porta, Bateu uma duas vezes e a porta abriu-se. Entrou e rápidamente o locatário fechou a porta. A medo perguntou num português raiano, usted é o Manolo? Quem pergunta diz o inquirido?Sou o enviado pelo tio Guilherme para tratar daquele assunto. E vieste sózinho ou trazes companhia? Teve algum receio mas arriscou. Nan lá fora está o meu irmão. Tudo bem podes ir chamá-lo que não há perigo. A guarda civil muito raramente aqui passa pelo que estaremos à vontade para o acerto das coisas. Também devem precisar de secar a roupa e de comerem alguma coisa. Assim como estás se fores visto és tratado como ladrão ou guerrilheiro. Chegou à porta que entreabriu, assobiou como o combinado e não tardou que o irmão surgisse do meio das moitas e se atirasse para dentro da casa.
J.Ariemal
Escorregando aqui e ali na caruma molhada dos pinheiros os dois irmãos lá iam seguindo um trilho abandonado que serpenteava serra acima. Seguim curvados protegendo-se do vento da chuva e do frio que naquela noite se faziam sentir. Seguiam afastados dois ou três metros um do outro porque mais não lhes permitia a visibilidade.
Era já noite cerrada quando exaustos pela subida em condições tão agrestes pararam, desviaram-se alguns passos do trilho e sentaram-se encostados aos penedos que pelo menos os protegiam do vento.
Sabiam que a descida para o ribeiro que servia de fronteira iria ser difícil. Deviam procurar seguir orientados apenas pelo hábito, fora dos caminhos e veredas para evitarem encontros inesperados.
Respiraram fundo, pegaram na trouxa e começaram a descer.
Devagar e segurando-se nos arbustros não conseguiam mesmo assim envitar algumas escorregadelas mais ou menos prolongadas. O que seguia na frente parou de repente, agachou-se e estendendo a mão ao irmão que o seguia apontou-lhe um vulto encostado ao tronco de uma árvore mais grossa. Estaria a não mais de dez metros. Ouviram tossicar e o riscar de um fósforo que iluminou por momentos o rosto de um guarda.
Com cuidados redobrados e em pequenos passos afastaram-se para o interior do pinhal e anicharam-se no meio de fetos. Ficaram em silêncio longos minutos. Quando se aperceberam que a sua presença não tinha sido detectada, levantaram-se e retomaram a marcha em sentido perpendicular ao local onde a guarda estava à espreita. Mais uns minutos de marcha e decidiram retomar a descida. O contacto entre os dois era feito por pequenos gestos, cúmplices de quem se conhecia como a palma da mão. Voltaram a parar a meio da encosta e esconderam-se no matagal. Tinham ouvido alguns assobios muito curtos e calcularam que eram os contrabandistas a avisarem-se entre si da emboscada.
Assim estiveram atentos a movimentos ou ruídos suspeitos mas aperceberam-se que os sinais de aviso dos contrabandistas soavam cada vez mais distantes.
Continuando a descida, parando e aguçando os sentidos para ruídos ou movimentos estranhos chegaram perto de um muro de pedra, meio destruído atrás do qual se esconderam. Começava a haver alguma claridade pelo que espreitaram por cima do muro para identificar o lugar onde se encontravam. Não viam mais do que meia dúzia de metros mas imaginaram que estariam à beira do riacho, que corria entre canaviais e cujo saltitar de pedra em pedra era o sinal que se encontravam à beira do salto que os levaria para o outro lado da fronteira.
Num sussurro o Tonho segredou ao irmão: Desviamo-nos muito do nosso carreiro. Quando estivermos do outro lado temos de subir o riacho que se bem me lembro corre entre estes canaviais e teremos de o subir durante mais de uma hora. Para mim devemos ir pela margem do ribeiro abrigando-nos na vegetação e devemos caminhar com cuidado e afastados um do outro. Eu vou primeiro e tu segues deixando algum espaço entre nós. Quando eu parar e me agachar fazes o mesmo. Só saímos do ribeiro quando for altura de encontrar-mos a tal casa que o tio Guilherme nos indicou. Devemos fazer este percurso quando a lua estiver bem alta. As sombras serão nossas amigas e esconderão os nossos movimentos.
Não te esqueças que quando alcançarmos os arredores da casa te deves esconder o melhor que puderes e que só nela entraremos se virmos a alguma distãncia a luz duma candeia que o nosso contacto colocará na janela da casa. Se a não virmos é sinal que a guarda civil ou a tropa estão lá na quintarola ou perto. Mantemo-nos quietos até receber o sinal de luz.
Avança um e depois o outro. Se um for apanhado faz-se passar por um simples contrabandista, abandona o saco com o café e foge, se puder, na direcção da fronteira de volta para o nosso abrigo na serra. O outro esconde-se e retomará o contacto com o caseiro que vai indicar onde se encontram as crianças.
O Xico fez sinal com a cabeça que tudo estava entendido. Deixaram-se ir escorregando pela margem do ribeiro agarrando-se aos arbustros que o bordejavam até sentirem os pés na água. Largaram-se e ficaram enxarcados porque o ribeiro fazia um fundão e a água chegava-lhes às axilas. Fazia uma corrente forte pelo que a subida se ia fazendo a passo de caracol, ora com água pelos ombros ora com água pelos joelhos. Tiritavam de frio e sentiam-se exaustos. Pararam, voltaram a subir a margem do ribeiro e deitaram-se no meio da folhagem. Sem uma palavra olharam-se nos olhos e estiveram quase a desistir. Mas faltou-lhes a coragem. Cerraram os olhos para não deixar escapar alguma lágrima rebelde.
Passados alguns minutos, tremendo de frio e medo e com o corpo dorido, ouviram um galo cantar. Acordaram do torpor onde mergulharam, apuraram os sentidos e ouviram de novo o cantar do galo. Ganharam novo alento e sem palavras pressentiram que deviam estar perto da quinta que procuravam. Deixa-te ficar, disse o irmão mais novo, que eu vou avançar mais uns metros para ver o que nos espera. Se estivermos no caminho certo venho chamar-te.
Rastejou pelo canavial e passados alguns metros vislumbrou à luz da madrugada uma construção de pedra mas não conseguiu ver a luz de sinal. Rastejou de volta até ao irmão e segredou-lhe: Vi uma casa. Deve ser o que nos assinalaram. Depois de sair do canavial dou uma corrida e escondo-me junto à parede junto a um monte de mato que lhe está encostado. Conta até vinte e se não ouvires nada de suspeito faz o mesmo. Eu espero por ti.
Assim fizeram.
Abriram um espaço no monte de mato, que tapava um denso silvado e, mesmo sentindo os arranhões das silvas esconderam-se encostados um ao outro. Puxaram algum do mato para se protejerem do frio e de alguma visita inesperada.
O nevoeiro matinal começou pouco a pouco a esfumar-se, a visibilidade aumentou e sairam para espreitar. E lá vislumbraram uma luzita, bem trémula que parecia perder-se no meio do mato. Estavam no bom caminho e sentiram-se mais afoitos. Até aqui tudo correu bem, mas ainda falta o mais difícil. Havemos de conseguir murmurou o Chico.
Sendo o mais novo, mais afoito e mais esclarecido o Tonho tinha assumido a liderança. Disse para o irmão: daqui em diante temos de ter cautelas redobradas. Avançarei sempre em primeiro lugar, aguardarás por um sinal meu que será sempre aquele assobio meio soprado, e que apenas farei uma vez. Presta atenção e só avanças ao meu encontro se reconheceres o sinal. Se nada te soar dentro de quinze minutos, volta para trás e segue outro caminho. Ou procuras encontrar a quinta onde as crianças estão escondidas ou, o mais prudente volta para casa. Está bem, deixa-me lá ver se o meu cebola está a funcionar ou se o banho o estragou. Puxou do bolso do colete um velho relógio, ainda trabalhava e marcava seis horas da manhã. O Tonho acertou o seu relógio abraçou o irmão e partiu. Pé ante pé deu a volta à casa, parou junto a porta e escutou.
Lá dentro ouviu o mexer numa panela e sentiu o cheiro de fumo que se esgueirava pelas frinchas da porta, Bateu uma duas vezes e a porta abriu-se. Entrou e rápidamente o locatário fechou a porta. A medo perguntou num português raiano, usted é o Manolo? Quem pergunta diz o inquirido?Sou o enviado pelo tio Guilherme para tratar daquele assunto. E vieste sózinho ou trazes companhia? Teve algum receio mas arriscou. Nan lá fora está o meu irmão. Tudo bem podes ir chamá-lo que não há perigo. A guarda civil muito raramente aqui passa pelo que estaremos à vontade para o acerto das coisas. Também devem precisar de secar a roupa e de comerem alguma coisa. Assim como estás se fores visto és tratado como ladrão ou guerrilheiro. Chegou à porta que entreabriu, assobiou como o combinado e não tardou que o irmão surgisse do meio das moitas e se atirasse para dentro da casa.
J.Ariemal
(Continua)

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