
QUASE MEMÓRIAS
1 – Encontro no meio do nada
No entardecer de um dia cinzento e chuvoso do mês de Dezembro, do ano de 1936, um homem caminhava, penosamente, serra acima por entre um souto de castanheiros bravos, protejendo-se da chuva e do frio com um capote improvisado, que mais não era do que uma saca de serapilheira, tornada parcialmente impermeável pelo azeite que escorria do carregamento da azeitona.
Numa das mãos, servindo de amparo, levava duas ou três varas secas de castanheiro bravo, que eram, ao mesmo tempo, o instrumento de trabalho na vareja das oliveiras.
Parou por momentos a sua caminhada e sentiu o cheiro do fumo que em pequenos novelos, se espraiava no souto.
O meu irmão já deve ter chegado, pensou o nosso caminhante e avançou um pouco mais até a uma pequena clareira onde um amontoado de ramagem de pinheiro e giesta formava uma pequena cabana.
Esgueirou-se, curvado, por um buraco aberto na folhagem e deixou-se cair sobre um monte de fetos. Sentiu o calor do pequeno lume que crepitava a meio da cabana. Respirou fundo , esgravatou os bolsos das calças ensopadas e de lá tirou um livro de mortalhas e um pacote de tabaco.
Começou a enrolar o cigarro, como se de um ritual se tratasse e olhou então para o vulto na sua frente.
Oh Chico, Isto é que está um tempo! Venho encharcado até aos ossos, moído de 3 horas de viagem serra acima, depois de uma semana de trabalho a colher a azeitona na herdade do Trindade e a pensar comigo mesmo que vou chegar a casa com meia dúzia de escudos que não vão chegar para pagar a conta da mercearia do Valentim.
É a nossa vida, sentenciou, finalmente o irmão. Levantou os olhos, encolheu mais os ombros, atiçou uma brasa e chegou lume ao fumador enquanto lhe dizia com uma voz profunda, seca como a pele que lhe cobria o rosto crestado e moído de trabalho e privações, e atirou:
O Tonho ainda trazes alguma coisa que se coma?
Olha, de caminho rabisquei umas castanhas, meio greladas, que podemos assar nas cinzas e ainda tenho um bocado de toucinho que não fui capaz de comer pois cheira a ranço que tresanda.
Com a fome que tenho, um bocado de toucinho assado na braza e as castanhas devem dar para enganar a fome, eu que até já sinto a pele da barriga encostada às costas.
Mas oh Chico, a gente tem de dar uma volta à nossa vida, temos de deitar mão a qualquer coisa que nos aguente a família até à Primavera.
Fazer o quê ? Roubar, não estou para aí virado.
Mais um silêncio e como se as palavras fossem arrancadas do fundo o Tonho, irmão mais novo, respondeu.
Eh pá nada disso. Enquanto colhi azeitona na herdade do Trindade, sabes aquela que fica ali para os lados de S.Julião, conheci um homem que me disse que se eu estivesse disposto a arriscar, ele me proporia um negócio que me podia dar uns escudos, bem mais do que ganharia em toda a fega da azeitona.
Oh Tonho mas tu conheces o homem?
Não, nunca o havia visto sequer, mas gostei de falar com ele pois o falar dele era bem mais claro do que as nossas conversas. Desconfio desses faladores. Já encontrei alguns e ia-me dando bem mal e tu sabes bem que quando me envolvi com uns aprendizes de contrabandista ia acabando agarrado pela Guarda.
Mas a fala deste homem nada tem a ver com os doidos com que te meteste. Este homem fala da exploração dos trabalhadores e contou-me estórias vividas na guerra civil aqui ao lado.
Já percebi. E digo-te mais, esse homem deve ser o Guilherme Costa, o cocho, e é um comunista. Vais arranjar algum trinta e um com a Polícia política e eles não são para brincadeiras. Num abrir e fechar de olhos acabas a apodrecer na prisão. Por isso não contes comigo.Em casa tenho filhos para criar. E dito isto que lhe havia provocado um arrepio espinha acima , recostou-se, fechou os olhos e pareceu adormecer.
Decorridos alguns momentos levantou-se da cama de fetos e disse para o irmão. Mas afinal qual era o negócio que o Cocho te propôs?
Pensava que estavas a dormir, mas afinal alguma coisa de ficou a moer a cabeça, ripostou o irmão. O certo é que não sei qual o negócio porque o tal Guilherme me disse que se estivessemos interessados o deviamos procurar em casa dele, uma casita que tem ali para os lados de Arronches e ele nos diria o que havia de dizer. Só que tem pressa e só pode esperar até amanhâ à noite, porque o que há a fazer tem de ser feito na noite de Natal. Diz ele que é quando o risco é menor pois os guardas deste lado estarão no quentinho da consoada.
Afinal sempre há risco, disse o irmão mais velho e experiente, mas estou a sentir qualque coisa em mim que me diz que talvez seja bom ouvir o que o homem tem a dizer e depois logo se vê.
Combinado, vamos passar pela casa do Cocho e para isso partimos logo que clarear.
1 – Encontro no meio do nada
No entardecer de um dia cinzento e chuvoso do mês de Dezembro, do ano de 1936, um homem caminhava, penosamente, serra acima por entre um souto de castanheiros bravos, protejendo-se da chuva e do frio com um capote improvisado, que mais não era do que uma saca de serapilheira, tornada parcialmente impermeável pelo azeite que escorria do carregamento da azeitona.
Numa das mãos, servindo de amparo, levava duas ou três varas secas de castanheiro bravo, que eram, ao mesmo tempo, o instrumento de trabalho na vareja das oliveiras.
Parou por momentos a sua caminhada e sentiu o cheiro do fumo que em pequenos novelos, se espraiava no souto.
O meu irmão já deve ter chegado, pensou o nosso caminhante e avançou um pouco mais até a uma pequena clareira onde um amontoado de ramagem de pinheiro e giesta formava uma pequena cabana.
Esgueirou-se, curvado, por um buraco aberto na folhagem e deixou-se cair sobre um monte de fetos. Sentiu o calor do pequeno lume que crepitava a meio da cabana. Respirou fundo , esgravatou os bolsos das calças ensopadas e de lá tirou um livro de mortalhas e um pacote de tabaco.
Começou a enrolar o cigarro, como se de um ritual se tratasse e olhou então para o vulto na sua frente.
Oh Chico, Isto é que está um tempo! Venho encharcado até aos ossos, moído de 3 horas de viagem serra acima, depois de uma semana de trabalho a colher a azeitona na herdade do Trindade e a pensar comigo mesmo que vou chegar a casa com meia dúzia de escudos que não vão chegar para pagar a conta da mercearia do Valentim.
É a nossa vida, sentenciou, finalmente o irmão. Levantou os olhos, encolheu mais os ombros, atiçou uma brasa e chegou lume ao fumador enquanto lhe dizia com uma voz profunda, seca como a pele que lhe cobria o rosto crestado e moído de trabalho e privações, e atirou:
O Tonho ainda trazes alguma coisa que se coma?
Olha, de caminho rabisquei umas castanhas, meio greladas, que podemos assar nas cinzas e ainda tenho um bocado de toucinho que não fui capaz de comer pois cheira a ranço que tresanda.
Com a fome que tenho, um bocado de toucinho assado na braza e as castanhas devem dar para enganar a fome, eu que até já sinto a pele da barriga encostada às costas.
Mas oh Chico, a gente tem de dar uma volta à nossa vida, temos de deitar mão a qualquer coisa que nos aguente a família até à Primavera.
Fazer o quê ? Roubar, não estou para aí virado.
Mais um silêncio e como se as palavras fossem arrancadas do fundo o Tonho, irmão mais novo, respondeu.
Eh pá nada disso. Enquanto colhi azeitona na herdade do Trindade, sabes aquela que fica ali para os lados de S.Julião, conheci um homem que me disse que se eu estivesse disposto a arriscar, ele me proporia um negócio que me podia dar uns escudos, bem mais do que ganharia em toda a fega da azeitona.
Oh Tonho mas tu conheces o homem?
Não, nunca o havia visto sequer, mas gostei de falar com ele pois o falar dele era bem mais claro do que as nossas conversas. Desconfio desses faladores. Já encontrei alguns e ia-me dando bem mal e tu sabes bem que quando me envolvi com uns aprendizes de contrabandista ia acabando agarrado pela Guarda.
Mas a fala deste homem nada tem a ver com os doidos com que te meteste. Este homem fala da exploração dos trabalhadores e contou-me estórias vividas na guerra civil aqui ao lado.
Já percebi. E digo-te mais, esse homem deve ser o Guilherme Costa, o cocho, e é um comunista. Vais arranjar algum trinta e um com a Polícia política e eles não são para brincadeiras. Num abrir e fechar de olhos acabas a apodrecer na prisão. Por isso não contes comigo.Em casa tenho filhos para criar. E dito isto que lhe havia provocado um arrepio espinha acima , recostou-se, fechou os olhos e pareceu adormecer.
Decorridos alguns momentos levantou-se da cama de fetos e disse para o irmão. Mas afinal qual era o negócio que o Cocho te propôs?
Pensava que estavas a dormir, mas afinal alguma coisa de ficou a moer a cabeça, ripostou o irmão. O certo é que não sei qual o negócio porque o tal Guilherme me disse que se estivessemos interessados o deviamos procurar em casa dele, uma casita que tem ali para os lados de Arronches e ele nos diria o que havia de dizer. Só que tem pressa e só pode esperar até amanhâ à noite, porque o que há a fazer tem de ser feito na noite de Natal. Diz ele que é quando o risco é menor pois os guardas deste lado estarão no quentinho da consoada.
Afinal sempre há risco, disse o irmão mais velho e experiente, mas estou a sentir qualque coisa em mim que me diz que talvez seja bom ouvir o que o homem tem a dizer e depois logo se vê.
Combinado, vamos passar pela casa do Cocho e para isso partimos logo que clarear.

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