domingo, 24 de maio de 2009

Quase Memórias




12 – Debaixo de fogo




O primeiro grupo já havia partido há um bom bocado quando a sentinela assinala que um pequeno avião estava a sobrevoar a serra, voando em círculos.
A chefe guerrilheira não teve dúvidas que o avião procurava a presença do grupo para orientar os tiros de morteiro e de artilharia.
Como já tinham montado as armadilhas com granadas de mão ligadas por fio disfarçado entre as pedras e o mato que bordejava o local onde se encontravam mandou recolher os companheiros para a trincheira que dominava a encosta onde o ataque se desenvolvia.
Os tiros de morteiro e algumas esporádicas rajadas de metralhadora, estavam longe de atingir a trincheira. Como não havia resposta os milicianos sentiram-se mais à vontade e correram pela encosta até muito perto do local de impacto dos morteiros. O fogo parou enquanto o avião de reconhecimento passava em círculos pelo cume do monte. Os artilheiros corrigiram o tiro de morteiros e as granadas rebentavam já relativamente próximo do local de abrigo dos guerrilheiros.
Para os dois irmãos era a primeira vez que se encontravam debaixo de fogo e não escondiam o seu nervosismo. Apercebendo-se do facto Dolores aproximou-se dizendo-lhes para estarem tranquilos mas prontos para a retirada logo que ela desse a ordem.
O bombardeamento cessou e os pelotões de assalto avançaram encosta acima fazendo fogo de espingarda mas duma forma aleatória. O capitão chamou os chefes de pelotão para uma pequena reunião. Tinha acabado de falar pelo rádio com o Comandante e chegado à conclusão que teriam de prescindir do apoio dos morteiros e combater corpo a corpo com os guerrilheiros que, pensavam, estariam escondidos entre as fragas da serra.
Recomeçaram a subida, vasculhando cada monte de pedras ou mancha de arbustos mas como nada encontravam descuraram a segurança.
Entraram numa zona menos abrupta e de repente um dos soldados acciona uma das minas colocadas pelos guerrilheiros. Houve um alarido, gritos dos feridos e ordens para abrir fogo indiscriminado. O local onde se encontravam era o que os guerrilheiros dominavam com campo de tiro aberto. A metralhadora manejada pelo Ramón e municiada pela Dolores abriu fogo em rajada apanhando de surpresa os atacantes.
Carlos e o Fadagosa despejavam tiros de espingarda seleccionando os alvos. O Capitão foi atingido e os milicianos sem comando correram encosta abaixo até ao centro de comando da operação.
O Comandante deu ordens para o reagrupamento da força de ataque, destacou mais uma companhia e reiniciou a subida, ordenando que os morteiros voltassem a bombardear o cume do monte.
O interregno era a ocasião esperada pelo pequeno grupo de guerrilha para se retirarem.
Sem atropelos e de forma ordenada começaram a descer a serra pela encosta oposta, por um caminho que bordejava declives mais ou menos acentuados e na sua base entrava num pinhal denso.
Os estrondos com o bombardeamento pareciam cada vez mais afastados quando Dolores mandou parar e reunir o grupo.
Com todo o cuidado e atenção e sempre pelo meio do pinhal vamos seguir até encontrar-mos a estrada que vai de Dehesa Mayor para Albuquerque.
Vai ser um caminho longo e difícil mas o pior já passou. Só devemos chegar ao objectivo pela noite dentro. Estejam atentos a tudo o que vos possa parecer estranho, como rastos, árvores cortadas pois o inimigo pode ter deixado pequenos grupos espalhados no perímetro alargado da serra.
Não há conversas daqui em diante.


J.Ariemal


(continua)

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