
14 – O encontro
Quando a luz da madrugada, meio envergonhada começou a despontar, Dolores aproximou-se do Antonio e do Chico. É agora que vamos correr o maior perigo. Tu, disse virando-se para o António, és mais novo e não tens o aspecto de guerrilheiro. Vais comigo à povoação e trazemos as crianças. Temos de largar as armas e assumir o aspecto de um casal que vai às compras. O Rámon levará o resto do grupo e as nossas coisas para a aldeia de la Codesera. No local onde já uma vez estivemos escondidos aguardará por nós e pelas crianças. Depois dali até à fronteira é relativamente perto e não costuma haver patrulhas. Se tudo correr bem, hoje à tarde poderão estar do outro lado e perto da povoação Portuguesa de Arronches. E vocês perguntou o Chico? Nós? Nós seguiremos o nosso destino.
Enquanto o António se arranjava o melhor possível, deitando fora os agasalhos rotos e sujos Dolores afastou-se um pouco e passado algum tempo apareceu vestida de camponesa, com lenço na cabeça disfarçando a enorme cabeleira, um pequeno saco de pano e um porta moedas numa das mãos. Preparou uma pistola walter de 9 mm, colocou o carregador, hesitou um bocado como a pensar o melhor local para esconder e optou por entalar a arma na cintura da saia por debaixo do avental preto que usava. Colocou-se ao lado do António e comenta para os camaradas. Parecemos ou não um casal que vai às compras? Acenaram que sim. E é isso que pretendemos mas para prevenir levo aqui o cartão de identidade, e bateu com a mão no local onde guardara a pistola. Vamos que está na hora de abrir o comércio na aldeia. Como é dia de mercado haverá mais gente na praceta e isso favorece-nos.
Os dois grupos separaram-se cada um seguindo o seu caminho.
Dolores e António entraram na povoação, aparentando a maior descontracção e até compraram numa vendedeira meia dúzia de laranjas e alguns frutos secos que arrumaram no saco. Ñotaram que havia muito movimento de carros militares e legionários espalhados pela aldeia. Deve ser consequência dos combates de ontem. Eles estão à procura de resistentes disfarçados entre oa habitantes, segreda Dolores.
Na praceta existia uma pequena Igreja e o campanário chamava os crentes para a primeira missa. Aproveitaram e por uma porta lateral entraram e sentaram-se junto dos assistentes, umas dúzias de mulheres vestidas de preto e dois ou três homens civis e alguns fardados como a guarda civil.
Assistiram à celebração e seguiram os ritos habituais. Quando saíram, seguiram uma mulher já de certa idade e que caminhava por uma ruela estreita, como são as ruas das aldeias. A mulher parou à porta de uma casa térrea, bateu e a porta foi-lhe aberta. Entrou mas deixou a porta entreaberta. Nesse momento Dolores aproximou-se olhou em redor, fez sinal para o companheiro que a seguiu e entraram na habitação. Porta fechada as duas mulheres abraçaram-se com força e uma lágrima escorreu-lhes pela face. Esta é a minha Irmã Maria, disse Dolores. Saíram as duas da sala, estiveram a conversar no quarto e o António apenas entendeu que Dolores dizia à irmã que iam pelas crianças. Passou algum tempo que António aproveitou para enrolar um cigarro. Estava difícil pois as mãos tremiam-lhe e a mortalha estava molhada. Retirou do lume que crepitava uma brasa com a qual acendeu o cigarro. Recostou-se, expirando o fumo e olhando para as figuras. Pensava há já quanto tempo durava a aventura para que havia arrastado o irmão. E quanto haviam passado. Reconfortou-se pensando, agora estamos prestes a cumprir a promessa ao velho Guilherme e a regressar a nossa casa.
As duas mulheres reentraram na cozinha, afastaram um pouco os cortinados de uma janela e com a claridade o António verificou que com elas vinham mais duas pessoas. Sentiu um frémito que não sabia ser de medo ou de comoção. A mulher que dava pelo nome de Maria pegou na mão de uma rapariga que não teria mais de 12 anos e disse: Esta é a Pilar e esta pequenita pendurada na saia da irmã é a Aparecida. São as filhas do Dr. Gonzalez que eu recolhi na rua quando mendigavam de porta a porta um pedaço de pão.
Não são faladoras porque muito sofreram. A Pilar mostrou toda a sua coragem quando após a morte da Mãe e a prisão do irmão mais velho, tomou conta da pequenita e com ela andou a bater de porta em porta, nas casas dos antigos amigos dos Pais que fingiram não as conhecer.
Estão comigo já há mais de um mês, nunca as vi sorrir nem chorar, nunca saíram de casa. Mas eu senti nelas a ternura que não conseguiam disfarçar quando eu as acariciava. Agora que podem voltar para a família irão esquecer as desgraças e as desventuras que, como tantos outros sofreram nesta terra. Eu sentirei saudades delas e aqui viverei com as minhas recordações.
Serviu um púcaro de café, pediu desculpa por não ter açucar, e uma fatia de pão a cada um. Comeram em silêncio.
Depois saiu da cozinha e voltou com dois chailes pretos, já coçados e deu-os às meninas para se protegerem do frio. Trazia ainda uma sacola que entregou a Dolores dizendo ser um pão e umas azeitonas para matarem a fome na viagem.
Com a voz embargada pela comoção aperguntou :Será que te voltarei a ver minha irmã?
Não creio. Sabes que eu tenho de seguir o meu caminho. Aquele que jurei sobre a campa dos nossos pais do meu homem e dos meus dois filhos. Seguirei lutando até que uma bala misericordiosa me leve para junto deles. Que Deus te guarde e de guie, retorquiu a irmã.
É melhor partir-mos ao encontro dos companheiros. Eu vi que há falangistas na vila mas não me parecem ser conhecidos e poderemos passar por eles como uma família de regresso a casa. Por isso é melhor fazer o caminho de dia e pela estrada. Se os falangistas nos perguntarem alguma coisa deixem-me falar a mim. Se eu vir que eles desconfiam, farei sinal. O António foge pelos campos levando as crianças e eu falarei com eles, com a minha fiel companheira que trago aqui debaixo do avental. Seguirei depois no vosso encalce. Mas, António, não esperem por mim, sigam sempre nos campos que ladeam a estrada até ao local onde vos espera o resto do grupo.
Fez uma carícia na cabeça das crianças, aconchegou o casacão e o lenço preto da cabeça, entreabriu a porta, espreitou e não vendo nada de suspeito saíram para a ruela.
Atavessaram a praça central da aldeia, sem despertar atenção. Cortaram à direita quando um homem de idade se cruzou e sem parar lhes sussurra: Voltem para trás e tentem ir pela rua que passa por detrás da Igreja. Aqui em frente os falangistas estão a controlar e a pedir os documentos a todos os viajantes. Dito isto sempre sem olhar, o desconhecido esgueirou-se apressadamente para um beco e deixou de ser visto.
Como se tivessem esquecido de alguma coisa, o grupo arrepiou caminho e tomou a direcção que o desconhecido lhes havia recomendado.
Sem sobressaltos de maior lá seguiam pela estrada quando, já longe da aldeia dois homens fardados e armados lhes surgiram na curva da estrada.
Mandaram parar e aproximaram-se. A Dolores reconheceu um dos homens como sendo Honório um conhecido ladrão que trabalhava para os revoltosos e preparou-se. O António percebeu o perigo, baixou-se para atacar os cordões das botas e disse entre dentes: Pilar quando me levantar pego na tua irmã ao colo e vou fugir da estrada para nos esconder-mos no meio daquelas árvores. Segue-me não pares e não olhes para trás.
Os dois falangistas aproximaram-se mais da Dolores e com as espingardas apontadas riram e comentaram. Já ganhamos o dia. Olha lá quem nos veio cair nas mãos. A chefe dos terroristas que a guarda civil procura. A Dolores aparentando pânico e medo ajoelhou-se e disse. Não me façam mal. Não sou quem vocês dizem. Tenho família para criar.
Eles riram-se e cometeram o erro de olhar para o homem e para as duas crianças alguns passos atrás, que fugiam pelo meio do mato. Foi o tempo necessário para a Dolores sacar da pistola disparar, atingindo o Honório que caiu esvaindo-se em sangue. O companheiro, largou a espingarda e começou a fugir. Não foi, longe pois a Dolores continuou a disparar derrubando-o com dois tiros certeiros.
Quando ouviu os tiros o António deitou-se no chão arrastando consigo as crianças. Soergueu-se e espreitou e o que viu não esqueceria mais.
Dolores aproximou-se do Honório que com as duas mãos procurava estancar o sangue que corria aos borbotões do peito. A sangue frio encostou a pistola à cabeça do moribundo e disparou um, dois tiros gritando: Morre porco traidor, que as balas que te cravei sejam a paga e a vingança daqueles que denunciaste, violaste e torturaste.
Depois pegou nas pernas do cadável puxou-o para fora do caminho e para o meio dos arbustos. Voltou à estrada fez o mesmo ao outro cadáver.
Recolheu as espingardas e as munições dos dois falangistas, e entrou nos campos.
Depressa encontrou os companheiros e perante o olhar surpreendido do António, só disse. Aqueles tiveram o que mereciam. Apenas o que mereciam. E nesta guerra, como te apercebeste não há hesitrações. Ou eles ou nós.
J.Ariemal
(continua)