sábado, 6 de junho de 2009

Contos datados 2008


PLAY TIME

Era uma vez um País de gente anafada, ambiciosa, indolente mas sobretudo habilidosa.
Uma elite com os mesmos predicados mas com superior espírito de iniciativa
decidiu brincar e estudar a construção de uma pirâmide tão grande que fizesse corar de vergonha os monumentos do Antigo Egipto.
Reunidos num dos resort de luxo, entregaram ao gabinete de projectos “Finance Capital,inc.” a elaboração de um ante-projecto de construção da pirâmide, exigindo que ela fosse diferente do que se conhecia.
O gabinete elaborou os estudos prévios que previam a construção de uma pirâmide invertida. A base de sustentação seria um exercício de equilibrio entre uma base de reduzidas dimensões e o seu crescimento em altura a largura. Era um projecto arriscado, engraçado, mas com estimativa de lucros fabulosos pelo que o ante-projecto foi rápidamente aprovado.
Não era um esquema verdadeiramente inédito, porque já alguém se atrevera a este tipo de construção mas a sua dimensão e complexidade transformava-o num desafio. A construção foi entregue ao “International Investements Fund,” empresa do grupo “ Free Market and Private Equity Org.”
Para racionalizar custos e maximizar os lucros a pirâmide deveria ser construída sem alicerces estruturada em milhões de contratos de hipoteca sobre casas, por sua vez desdobrados em inúmeros produtos derivados, hedging funds, titularização de dívida pública, warrants, obrigações de alto risco, contratos de financiamento à compra de armamento, acordos para o financiamento da montagem de lavandarias adequadas ao tratamento do pó branco, vindo directamente das melhores refinarias.
Juntaram-se uns especialistas em manipulação de cotações, analistas de mercado, professores de finanças e outros espertos da moda para de papel em papel, uns sobre os outros, ligados por uma teia de mentiras, desleixos e incompetências construirem o plano de negócios, ou seja a pirâmide. Começaram a inundar o mercado com produtos inovadores que garantiam uma retribuição muito acima do habitual. A rede de comercialização foi entregue a grupos bancários, companhias de seguros e a uma bem montada rede de “brokers”.Cresceu e internacionalizou-se. A experteza de alguns, a ganância de muitos e a saloisse de muitos mais forneceram a massa crítica indispensável ao desenvolvimento do negócio.
Os resultados não podiam ser melhores. Era um fartote de ganhar dinheiro com base em produtos que já ninguém sabia quanto valiam e onde estavam no meio da embrulhada, mas isso não era sequer importante.
O conceito assim tão inovador e de sucesso despertou o interesse dos empreendedores de outros Países e a fórmula mágica da construção da pirâmide foi-se disseminando e novas obras nasceram e cresceram.
Até que um belo dia, por descuido ou menor cuidado das Autoridades competentes, uma criança se aproximou da pirâmide principal e puxou um papel com números cheios de zeros.
Imediatamente a pirâmide começou a oscilar.
Os construtores alarmados reuniram-se de imediato com os consultores habituais. Que papel era este que ameaçava a construção, perguntavam? Os especialistas em engenharia financeira analisaram o raio do papel que mais não era do que um produto derivado sobre hipotecas cujo valor estava mais de cinquenta por cento acima do valor real das casas.
Como tratamento recomendaram reequilibrar a pirâmide injectando dinheiro no núcleo.
Foi uma solução que apenas adiou o desmoronamento. Alguém pôs a boca no trombone, o pânico espalhou-se e o estrondo com a ruína ouviu-se em todo o mundo. Tocaram os alarmes. Toca a injectar mais dinheiro mas era tarde demais.
A criança havia criado com o seu gesto o colapso da construção e a tragédia consumou-se. Afinal a pirâmide não passava de uma torre de Babel assente em qualquer coisa que já ninguém sabia exactamente o que era.
Em todo o mundo, os ratos, sempre previdentes, foram os primeiros a saltar e esconderam-se a bom recato em lugares exóticos.
Os gananciosos converteram-se em ingénuos e foram logo a correr gritar por ajuda. Bateram à porta das Autoridades que afinal, veio a saber-se mais tarde, nunca tinham reparado na estranha pirâmide que lhes crescera nas barbas, e pediram a garantia do reembolso das suas poupanças. Diga-se em abono da verdade que com o desmoronamente haviam perdido dois terços das suas fortunas e não fora o cuidado de manterem em bom recato alguns milhares de milhões estariam nas ruas a pedir esmola.
Os lorpas ficaram para o fim. Lorpas eram e lorpas hão-de ser. Sempre assim foi ao longo dos tempos. Afinal eles são indispensáveis para pagarem a pirâmide e a próxima construção, porque mais tarde ou mais cedo “the show must go on”.

J. Ariemal

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Quase Memórias



15 – Capítulo final

O resto do caminho não foi difícil. Num pardieiro abandonado nos arredores da aldeia de la Lagosera encontraram o resto do grupo.
A noite começava a cair mas Dolores pensou que o tiroteio tivesse alertado a guarda ou tivesssem encontrado os cadáveres. Assim, disse ela, apesar do cansaço vamos conduzi-los até perto da fronteira Portuguesa.
O Chico colocou a Aparecida às cavalitas fizeram a coluna que marchou por uma vereda sem sinais de passagens recentes . À frente Rámon indicava o caminho e marcava um andamento acelerado. Parou ao fim de quatro horas de marcha, noite cerrada mas sem nevoeiro, chamou Dolores e o António e duma pequena elevação apontou à distância uns raios de luz. Ali é uma aldeia Portuguesa cujo nome não recordo. Mas sei que fica perto de outra maior que tem o nome de Arronches. Para lá chegarem seguem uma ribeira que irão encontrar dentro de meia hora de caminho. O resto do caminho é com vocês.
A mulher olhou para os dois irmãos, fez uma tímida carícia na cabeça das crianças e disse. Vá, daqui em diante não vão precisar da nossa ajuda. Oxalá tudo vos corra bem mas lembrem-se de nós e de outros que continuam a lutar e a morrer em nome da República.
António abraçou comovido os companheiros começou a andar, parou voltou atrás e perguntou: O que vai ser de vocês, o que tencionam fazer?
Dolores encolheu os ombros dizendo. Nós vamos tentar chegar a Madrid. São mais de quatrocentos kilómetros de distância em zona inimiga. Mas é em Madrid que tudo se irá resolver. Lutaremos ao lado dos nossos irmãos e se tivermos de morrer, pois morreremos. Mas de pé, de armas na mão e de cabeça erguida.
Nota do autor:
“Quase memórias” é ficção, mas inclui factos baseados em histórias que guardei e que me foram transmitidas por meu Pai.
Como se sabe, a guerra civil de Espanha foi a última guerra romântica. Lutaram ao lado da República, escritores, intelectuais e artistas de todo o mundo.
Mas foi mais, foi o prelúdio de uma época de trevas que se abateu sobre a Europa.

Em memória de meu Pai
J.Ariemal
29 de Maio de 2009



J.Ariemal

2009/04/25

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Quase Memórias



14 – O encontro


Quando a luz da madrugada, meio envergonhada começou a despontar, Dolores aproximou-se do Antonio e do Chico. É agora que vamos correr o maior perigo. Tu, disse virando-se para o António, és mais novo e não tens o aspecto de guerrilheiro. Vais comigo à povoação e trazemos as crianças. Temos de largar as armas e assumir o aspecto de um casal que vai às compras. O Rámon levará o resto do grupo e as nossas coisas para a aldeia de la Codesera. No local onde já uma vez estivemos escondidos aguardará por nós e pelas crianças. Depois dali até à fronteira é relativamente perto e não costuma haver patrulhas. Se tudo correr bem, hoje à tarde poderão estar do outro lado e perto da povoação Portuguesa de Arronches. E vocês perguntou o Chico? Nós? Nós seguiremos o nosso destino.
Enquanto o António se arranjava o melhor possível, deitando fora os agasalhos rotos e sujos Dolores afastou-se um pouco e passado algum tempo apareceu vestida de camponesa, com lenço na cabeça disfarçando a enorme cabeleira, um pequeno saco de pano e um porta moedas numa das mãos. Preparou uma pistola walter de 9 mm, colocou o carregador, hesitou um bocado como a pensar o melhor local para esconder e optou por entalar a arma na cintura da saia por debaixo do avental preto que usava. Colocou-se ao lado do António e comenta para os camaradas. Parecemos ou não um casal que vai às compras? Acenaram que sim. E é isso que pretendemos mas para prevenir levo aqui o cartão de identidade, e bateu com a mão no local onde guardara a pistola. Vamos que está na hora de abrir o comércio na aldeia. Como é dia de mercado haverá mais gente na praceta e isso favorece-nos.
Os dois grupos separaram-se cada um seguindo o seu caminho.
Dolores e António entraram na povoação, aparentando a maior descontracção e até compraram numa vendedeira meia dúzia de laranjas e alguns frutos secos que arrumaram no saco. Ñotaram que havia muito movimento de carros militares e legionários espalhados pela aldeia. Deve ser consequência dos combates de ontem. Eles estão à procura de resistentes disfarçados entre oa habitantes, segreda Dolores.
Na praceta existia uma pequena Igreja e o campanário chamava os crentes para a primeira missa. Aproveitaram e por uma porta lateral entraram e sentaram-se junto dos assistentes, umas dúzias de mulheres vestidas de preto e dois ou três homens civis e alguns fardados como a guarda civil.
Assistiram à celebração e seguiram os ritos habituais. Quando saíram, seguiram uma mulher já de certa idade e que caminhava por uma ruela estreita, como são as ruas das aldeias. A mulher parou à porta de uma casa térrea, bateu e a porta foi-lhe aberta. Entrou mas deixou a porta entreaberta. Nesse momento Dolores aproximou-se olhou em redor, fez sinal para o companheiro que a seguiu e entraram na habitação. Porta fechada as duas mulheres abraçaram-se com força e uma lágrima escorreu-lhes pela face. Esta é a minha Irmã Maria, disse Dolores. Saíram as duas da sala, estiveram a conversar no quarto e o António apenas entendeu que Dolores dizia à irmã que iam pelas crianças. Passou algum tempo que António aproveitou para enrolar um cigarro. Estava difícil pois as mãos tremiam-lhe e a mortalha estava molhada. Retirou do lume que crepitava uma brasa com a qual acendeu o cigarro. Recostou-se, expirando o fumo e olhando para as figuras. Pensava há já quanto tempo durava a aventura para que havia arrastado o irmão. E quanto haviam passado. Reconfortou-se pensando, agora estamos prestes a cumprir a promessa ao velho Guilherme e a regressar a nossa casa.
As duas mulheres reentraram na cozinha, afastaram um pouco os cortinados de uma janela e com a claridade o António verificou que com elas vinham mais duas pessoas. Sentiu um frémito que não sabia ser de medo ou de comoção. A mulher que dava pelo nome de Maria pegou na mão de uma rapariga que não teria mais de 12 anos e disse: Esta é a Pilar e esta pequenita pendurada na saia da irmã é a Aparecida. São as filhas do Dr. Gonzalez que eu recolhi na rua quando mendigavam de porta a porta um pedaço de pão.
Não são faladoras porque muito sofreram. A Pilar mostrou toda a sua coragem quando após a morte da Mãe e a prisão do irmão mais velho, tomou conta da pequenita e com ela andou a bater de porta em porta, nas casas dos antigos amigos dos Pais que fingiram não as conhecer.
Estão comigo já há mais de um mês, nunca as vi sorrir nem chorar, nunca saíram de casa. Mas eu senti nelas a ternura que não conseguiam disfarçar quando eu as acariciava. Agora que podem voltar para a família irão esquecer as desgraças e as desventuras que, como tantos outros sofreram nesta terra. Eu sentirei saudades delas e aqui viverei com as minhas recordações.
Serviu um púcaro de café, pediu desculpa por não ter açucar, e uma fatia de pão a cada um. Comeram em silêncio.
Depois saiu da cozinha e voltou com dois chailes pretos, já coçados e deu-os às meninas para se protegerem do frio. Trazia ainda uma sacola que entregou a Dolores dizendo ser um pão e umas azeitonas para matarem a fome na viagem.
Com a voz embargada pela comoção aperguntou :Será que te voltarei a ver minha irmã?
Não creio. Sabes que eu tenho de seguir o meu caminho. Aquele que jurei sobre a campa dos nossos pais do meu homem e dos meus dois filhos. Seguirei lutando até que uma bala misericordiosa me leve para junto deles. Que Deus te guarde e de guie, retorquiu a irmã.
É melhor partir-mos ao encontro dos companheiros. Eu vi que há falangistas na vila mas não me parecem ser conhecidos e poderemos passar por eles como uma família de regresso a casa. Por isso é melhor fazer o caminho de dia e pela estrada. Se os falangistas nos perguntarem alguma coisa deixem-me falar a mim. Se eu vir que eles desconfiam, farei sinal. O António foge pelos campos levando as crianças e eu falarei com eles, com a minha fiel companheira que trago aqui debaixo do avental. Seguirei depois no vosso encalce. Mas, António, não esperem por mim, sigam sempre nos campos que ladeam a estrada até ao local onde vos espera o resto do grupo.
Fez uma carícia na cabeça das crianças, aconchegou o casacão e o lenço preto da cabeça, entreabriu a porta, espreitou e não vendo nada de suspeito saíram para a ruela.
Atavessaram a praça central da aldeia, sem despertar atenção. Cortaram à direita quando um homem de idade se cruzou e sem parar lhes sussurra: Voltem para trás e tentem ir pela rua que passa por detrás da Igreja. Aqui em frente os falangistas estão a controlar e a pedir os documentos a todos os viajantes. Dito isto sempre sem olhar, o desconhecido esgueirou-se apressadamente para um beco e deixou de ser visto.
Como se tivessem esquecido de alguma coisa, o grupo arrepiou caminho e tomou a direcção que o desconhecido lhes havia recomendado.
Sem sobressaltos de maior lá seguiam pela estrada quando, já longe da aldeia dois homens fardados e armados lhes surgiram na curva da estrada.
Mandaram parar e aproximaram-se. A Dolores reconheceu um dos homens como sendo Honório um conhecido ladrão que trabalhava para os revoltosos e preparou-se. O António percebeu o perigo, baixou-se para atacar os cordões das botas e disse entre dentes: Pilar quando me levantar pego na tua irmã ao colo e vou fugir da estrada para nos esconder-mos no meio daquelas árvores. Segue-me não pares e não olhes para trás.
Os dois falangistas aproximaram-se mais da Dolores e com as espingardas apontadas riram e comentaram. Já ganhamos o dia. Olha lá quem nos veio cair nas mãos. A chefe dos terroristas que a guarda civil procura. A Dolores aparentando pânico e medo ajoelhou-se e disse. Não me façam mal. Não sou quem vocês dizem. Tenho família para criar.
Eles riram-se e cometeram o erro de olhar para o homem e para as duas crianças alguns passos atrás, que fugiam pelo meio do mato. Foi o tempo necessário para a Dolores sacar da pistola disparar, atingindo o Honório que caiu esvaindo-se em sangue. O companheiro, largou a espingarda e começou a fugir. Não foi, longe pois a Dolores continuou a disparar derrubando-o com dois tiros certeiros.
Quando ouviu os tiros o António deitou-se no chão arrastando consigo as crianças. Soergueu-se e espreitou e o que viu não esqueceria mais.
Dolores aproximou-se do Honório que com as duas mãos procurava estancar o sangue que corria aos borbotões do peito. A sangue frio encostou a pistola à cabeça do moribundo e disparou um, dois tiros gritando: Morre porco traidor, que as balas que te cravei sejam a paga e a vingança daqueles que denunciaste, violaste e torturaste.
Depois pegou nas pernas do cadável puxou-o para fora do caminho e para o meio dos arbustos. Voltou à estrada fez o mesmo ao outro cadáver.
Recolheu as espingardas e as munições dos dois falangistas, e entrou nos campos.
Depressa encontrou os companheiros e perante o olhar surpreendido do António, só disse. Aqueles tiveram o que mereciam. Apenas o que mereciam. E nesta guerra, como te apercebeste não há hesitrações. Ou eles ou nós.

J.Ariemal

(continua)




terça-feira, 26 de maio de 2009

Quase Memórias



13 – Escaramuça

Retomaram a marcha. O Rámon que era daquela zona guiava o grupo com forte andamento. O som das explosões era cada vez mais longínquo. Os portugueses andavam, esquecendo o cansaço que os fazia tropeçar com frequência mas não escondiam o nervoso. Ao aperceber-se disso Dolores aproximou-se e segredou: É a primeira vez que se vêm metidos nestas coisas, não é verdade? Assinalaram que sim, esta esboçou um sorriso e disse. Eu avisei de que têm de ter confiança. Não tenham medo.O barulho dos explosões e dos tiros de espingarda e metralhadora que já mal se ouvem não são perigosos para nós. Eles estão a atacar o local que já abandonamos há bastante tempo e quando se aperceberem que estão a atacar fantasmas já nós estareremos a salvo. O que temos é de evitar ser vistos pelo avião e por isso vamos andar sempre escondidos pelos pinheiros.
Como tinham previsto os nacionalistas tinham espalhado pequenos grupos armados. Quando o pequeno grupo se aproximava da estrada o guia, Rámon, faz sinal de perigo, chama a Dolores e aponta-lhe um nicho ne berma da estrada onde três milicianos se encontravam refastelados, meio adormecidos.
Voltaram para trás e pararam a distância conveniente, fora da visibilidade dos milicianos. Dolores toma a decisão de atacar. Diz, não sabemos se é um grupo isolado ou sentinelas. Mas estão no nosso caminho e nosso destino é chegar aos arredores de Benavente. Vamos fazer um ataque rápido e de surpresa e imediatamente retomamos a marcha em andamento esforçado para nos afastarmos do local sem descurar o nosso objectivo, que é os arredores da vila. Só aí poderemos descansar e preparar o dia de amanhã. Vai ser duro mas temos de conseguir chegar pelo cair da noite. Até lá pouco barulho e olhos bem abertos. Se virem ou ouvirem algo fora do normal, param e aguardam que se faça o reconhecimento. Só retomarão a marcha à minha ordem e, atenção, parados ou a andar não temos tempo para comer e nem pensem em acender um cigarro.
A Dolores chamou o Rámon e disse-lhe: tu nasceste nesta zona és capaz de orientar o grupo de noite pelo meio do mato até as proximidades de Benavente. Logo que eu e o Carlos iniciemos o ataque atravessas a estrada e segue o caminho. Não esperes por nós. Quando tivermos eliminado os emboscados depressa te apanharemos.
Fez sinal ao Carlos para se juntar a ela, prepararam as armas e uma granada. Rastejando, foram-se aproximando do objectivo e quando estavam bem perto lançaram a granada e romperam pelo grupo aos tiros. O ataque durou pouco tempo. Apanhados de surpresa os milicianos não tiveram tempo de fugir ou responder e foram abatidos.
Pegaram nas armas do inimigo que colocaram a tiracolo recomeçaram a marcha depressa encontrando o restante grupo que os precedia.
Vamos seguir muito perto um dos outros. Para não nos perdermos agarrem a mochila do companheiro da frente. Quando encontrares um bom local montaremos o acampamento improvisado. Não pode ser é muito longe da povoação. Sem problema, respondeu o Rámon. Conheço o sítio como a palma das minhas mãos e sei do local conveniente para acampar-mos.
Marcharam mais umas horas sem incidentes. A noite já ia adiantada quando o Rámon fez alto e apontou um aglomerado de arbustos altos. Daqui até à povoação não é mais de uma hora de marcha. Não existem casas nas redondezas. Então diz Dolores, é aqui que vamos finalmente descansar, que bem precisamos.
Ninguém se preocupou em montar estruturas para o acampamento. Estavam tão cansados que, apesar da chuva e do frio, se deitaram simplesmente no chão.
O grupo espalhou-se num pequeno círculo de modo a que enquanto descansavam montarem a segurança.
Os Portugueses sentiam estar perto do final da sua aventura e raganharam as forças mesmo sem tomarem qualquer alimento. Os guerrilheiros, habituados a movimentações duras e frequentes, puxaram das mochilas para se recostarem e delas retiraram pão e carne de porco fumada que começaram a comer com evidente satisfação. Cobriram-se com o capote, fecharam os olhos e dormitaram até ao romper do dia.


J.Ariemal


(continua)



domingo, 24 de maio de 2009

Quase Memórias




12 – Debaixo de fogo




O primeiro grupo já havia partido há um bom bocado quando a sentinela assinala que um pequeno avião estava a sobrevoar a serra, voando em círculos.
A chefe guerrilheira não teve dúvidas que o avião procurava a presença do grupo para orientar os tiros de morteiro e de artilharia.
Como já tinham montado as armadilhas com granadas de mão ligadas por fio disfarçado entre as pedras e o mato que bordejava o local onde se encontravam mandou recolher os companheiros para a trincheira que dominava a encosta onde o ataque se desenvolvia.
Os tiros de morteiro e algumas esporádicas rajadas de metralhadora, estavam longe de atingir a trincheira. Como não havia resposta os milicianos sentiram-se mais à vontade e correram pela encosta até muito perto do local de impacto dos morteiros. O fogo parou enquanto o avião de reconhecimento passava em círculos pelo cume do monte. Os artilheiros corrigiram o tiro de morteiros e as granadas rebentavam já relativamente próximo do local de abrigo dos guerrilheiros.
Para os dois irmãos era a primeira vez que se encontravam debaixo de fogo e não escondiam o seu nervosismo. Apercebendo-se do facto Dolores aproximou-se dizendo-lhes para estarem tranquilos mas prontos para a retirada logo que ela desse a ordem.
O bombardeamento cessou e os pelotões de assalto avançaram encosta acima fazendo fogo de espingarda mas duma forma aleatória. O capitão chamou os chefes de pelotão para uma pequena reunião. Tinha acabado de falar pelo rádio com o Comandante e chegado à conclusão que teriam de prescindir do apoio dos morteiros e combater corpo a corpo com os guerrilheiros que, pensavam, estariam escondidos entre as fragas da serra.
Recomeçaram a subida, vasculhando cada monte de pedras ou mancha de arbustos mas como nada encontravam descuraram a segurança.
Entraram numa zona menos abrupta e de repente um dos soldados acciona uma das minas colocadas pelos guerrilheiros. Houve um alarido, gritos dos feridos e ordens para abrir fogo indiscriminado. O local onde se encontravam era o que os guerrilheiros dominavam com campo de tiro aberto. A metralhadora manejada pelo Ramón e municiada pela Dolores abriu fogo em rajada apanhando de surpresa os atacantes.
Carlos e o Fadagosa despejavam tiros de espingarda seleccionando os alvos. O Capitão foi atingido e os milicianos sem comando correram encosta abaixo até ao centro de comando da operação.
O Comandante deu ordens para o reagrupamento da força de ataque, destacou mais uma companhia e reiniciou a subida, ordenando que os morteiros voltassem a bombardear o cume do monte.
O interregno era a ocasião esperada pelo pequeno grupo de guerrilha para se retirarem.
Sem atropelos e de forma ordenada começaram a descer a serra pela encosta oposta, por um caminho que bordejava declives mais ou menos acentuados e na sua base entrava num pinhal denso.
Os estrondos com o bombardeamento pareciam cada vez mais afastados quando Dolores mandou parar e reunir o grupo.
Com todo o cuidado e atenção e sempre pelo meio do pinhal vamos seguir até encontrar-mos a estrada que vai de Dehesa Mayor para Albuquerque.
Vai ser um caminho longo e difícil mas o pior já passou. Só devemos chegar ao objectivo pela noite dentro. Estejam atentos a tudo o que vos possa parecer estranho, como rastos, árvores cortadas pois o inimigo pode ter deixado pequenos grupos espalhados no perímetro alargado da serra.
Não há conversas daqui em diante.


J.Ariemal


(continua)

sábado, 23 de maio de 2009

Quase Memórias



11 – A retirada



Os dois irmãos estavam a dormitar quando deram pela agitação do grupo.Dois guerrilheiros, que faziam de sentinelas avançadas numa das encostas da serra,acabavam de entrar na gruta.
Segredaram qualquer coisa ao Manuel este levantou-se e foi chamar a Dolores que repousava num recanto. O exército está a começar a subir a serra. E são muitos pois lá no vale estavam paradas 4 camionetas e outros soldados a montarem os morteiros. Não tarda devemos estar a ser atacados, dizem os sentinelas.
Manuel vem comigo e com estes dois camaradas para avaliar-mos a situação, decidiu a mulher.
E lá foram ao ponto de vigia que lhes permitia ver o movimento da tropa. Confirmaram o que os vigias haviam dito, e voltaram ao esconderijo.
A mulher que decididamente comandava a guerrilha deu ordens para reunir o grupo.
A nossa posição deve ter sido comunicada aos fascistas porque estão de facto e montar posições de ataque. Alguém nos denunciou mas isso iremos averiguar mais tarde. Agora é tempo de decisões. Assim e porque não temos capacidade para resistir a um ataque em força vamos activar o programa de retirada que já temos elaborado mas com pequenas alterações.
Dividimo-nos em dois grupos. O Manuel tu comandas o primeiro grupo que será constituído pelo Severino o Pablo o Alberto o Juan o Manolo o Diego e o Perez e com a Mercedes e a Rosário. Pegam nas armas e nas munições e começam a descida por aquele carreiro que está assinalado no mapa. Evita o contacto com o inimigo até se aproximarem da estrada principal. Aí montarás uma emboscada a uma coluna de reabastecimento de modo a que consigas tomar o controlo de uma ou duas viaturas de transporte. Vestem a roupa dos soldados que capturarem e como o Juan e o Alberto sabem conduzir, fazem-se à estrada que segue na direcção de Madrid. No local que te assinalei no mapa viras à direita e tentas alcançar Ciudad Rodrigo. Aí encontrarás forças governamentais a quem se podem juntar para continuarem a lutar. Se seguirem com cuidado e com confiança vão conseguir.
E aos soldados capturados o que fazemos, perguntou um dos homens. Ora os que não oferecerem luta desarma-os e prende-os longe da estrada. Coloquem mordaças para que eles não possam gritar por socorro. Em algum momento hão-de ser salvos e quanto mais tarde melhor para vocês. Se forem mouros ou legionários, não tenham piedade executem-nos e escondam os cadáveres.
Eu, o Carlos o Fadagosa e o Ramón partiremos algum tempo depois. Vamos abrigar-nos dos tiros de morteiro e de artilharia e da trincheira que conhecemos responderemos ao fogo inimigo com rajadas da metralhadora de 50 mm. Quando eles sentirem o vigor da nossa reacção procurarão abrigo e aguardarão reforços ou bombardeamentos aéreos.
Nessa altura já nós com estes dois amigos estaremos no trilho de evacuação não sem antes minar e armadilhar as entradas do esconderijo.
Manuel prepara o teu grupo e parte. Voltaremos a encontra-nos, pergunta este? Não sei mas confio em todos e sentirei a vossa falta. Posso garantir que tudo farei para nos reunir-mos na defesa de Madrid. Será aí que se vai decidir esta maldita guerra.


J.Ariemal


(continua)





quinta-feira, 21 de maio de 2009

Quase Memórias




10 - Dolores


O guia chegou-se perto deles e por sinais fê-los levantar e caminhar na direcção da gruta. Era escuro mas pouco a pouco os olhos foram-se habituando àquela meia luz e puderam olhar e ver as pessoas que ali se encontravam.
Não seriam mais de seis ou sete e vestidos como os pastores. Respiraram de alívio. Do mal o menos estes devem ser guerrilheiros e não nos devem fazer mal.
O silêncio foi quebrado quando uma voz de mulher chama o guia e lhe diz. Vai chamar o Manuel.
Este era um homem de estatura meã, típico dos pastores da zona de fronteira, com safões e casacão de pele de ovelha e com uma espingarda caçadeira à tiracolo. Olhou para os dois irmãos e disse num português arrevesado. Dolores, estes dois devem ser do outro lado da fronteira e andam no contrabando.
Então a mulher levantou-se do local onde se encontrava sentada, pegou num toco de vela aceso, aproximou-se dos irmãos e olhou-os com atenção.
Deves ter razão, mas temos de saber o que andam a fazer por estes lados porque isto não é caminho de contrabandistas. Manuel tu ficas aqui enquanto esses dois nos vão contar ao que vêm e que querem e como aqui chegaram. Se houver algo que te pareça mentira, avisas. Mas primeiro e não vá o diabo tecê-las revista-os e abre os sacos que trazem. O Manuel revistou as roupas, encontrou apenas as notas molhadas escondidas no forro dos casacos,abriu os sacos e espalhou o seu recheio no chão. E deles só saíram dois bocados de pão e queijo bolorento embrulhados em farrapos de serapilheira.
Parece que além de cansados devem estar mortos de fome e de medo. Diz para se sentarem e comerem da nossa comida e depois quero que me contem tudo, principalmente porque trazem escondido o dinheiro e onde e como o arranjaram.
E assim fizeram. Falaram do disfarce do contrabando e do verdadeiro objectivo da viagem. Contaram o encontro com o Manolo, as indicações recebidas que estavam certos eram uma mentira, o caminho que seguiram até serem encontrados. Falaram do frio e da fome porque passaram na viagem e o desgosto que sentiam por não terem conseguido encontrar as crianças que a família procurava.
Fizeram uma pausa. Baixaram a cabeça em sinal de desânimo e uma lágrima furtiva escorreu pela face curtida daqueles dois homens.
A mulher ouviu com atenção e perguntou, e agora o que tencionam fazer?
Por muito que nos custe queremos voltar para casa, para junto da família que não vemos há mais de três dias.
Quer dizer que vão esquecer a promessa que fizeram ao vosso amigo?
Isso é o que mais nos custa mas na verdade não temos como continuar a procura pois depois de tantas voltas, já nem o caminho para casa somos capazes de encontrar.
E se eu os ajudar a encontrar as crianças? Vocês estão na disposição de fazer mais algum sacrifício e até de correrem riscos?
O António olhou para o irmão, ergueu os ombros e com um novo brilho nos olhos disse Sim, estamos.
A mulher fixa o olhar no vazio e falando com a voz sumida diz. O meu nome é Dolores.Também eu perdi os meus Pais o meu marido e dois filhos. Sei o que isso é. Fui professora e ensinei muitos camponeses a ler e a escrever. Isso traçou o meu destino. Tinha de ser morta. Fugi, ajudada por amigos e as tropas do tércio vingaram-se chacinando os meus familiares
Com este pequeno grupo escondemo-nos na serra e daqui continuamos a luta contra os fascistas do Franco. Vamos fazendo umas emboscadas, aqui e ali, atacando pelotões da tropa e da guarda civil sempre que reunimos informações que nos dêm a vantagem da surpresa. De vez em quando descemos em grupo de dois ou três a uma das aldeias mais próximas para arranjar comida e informações. Armas não nos faltam e munições também não.
Temos um aliado muito forte que é a nossa vontade de resistir e esta serra inóspita dá-nos refúgio. Mas sabemos que os franquistas sabem onde nos encontramos pelo que só aqui nos manteremos enquanto houver segurança. Isolados não conseguiremos nada a não ser incomodar o inimigo e por isso temos como objectivo romper as linhas e juntar-mo-nos aos nossos camaradas na defesa de Madrid.
Nós suspeitamos que o Manolo a que vocês se referiram é um informador e que já enganou muita gente. Por medo ou convicção alguns soldados que desertaram para se juntar aos guerrilheiros foram atraídos por ele a uma emboscada e nunca mais deles soubemos.
Eu sou natural de Benavente. Quando da minha última sortida à povoação, estadia bem curta porque ela estava cheia de legionários, encontrei a minha irmã que me disse ter recolhido duas crianças qua andavam na rua sem eira nem beira. Devem ser sem dúvida as crianças que vocês procuram.
Posso, portanto, ajudar-vos mas têm de confiar em mim e fazer as coisas como eu disser.
Acenaram que sim.
J.Ariemal
(continua)







segunda-feira, 18 de maio de 2009

Quase Memórias




9 – A guerrilha

A manhã começava um pouco mais amena e os dois viajantes sentiram-se mais reconfortados. Pouco haviam dormido e o rosto não escondia a preocupação. Não sabiam onde estavam e o que fazer. As casas indicadas pelo Manolo nem vê-las. Comeram um bocado do pão que lhes restava mas a angústia era bem visível e sentiam um nó na garganta pelo que o pão, já velho e amolecido pela humidade, lhes custava a engolir.
Olharam-se e com uma mistura de desânimo medo e raiva por terem sido traídos e tomaram a decisão de voltar para casa. Não foram precisas palavras. Sabiam que lhes não restava outro caminho.
Mas não seria fácil, pois não conheciam o local onde se encontravam e para que lado deviam marchar.
Pelo sim e pelo não, disse o António, vamos levantar poiso o mais rápido possível, atravessar o pinhal, subir aquele monte para ver se nos orientamos. Temos de nos afastar deste local porque ele foi um dos indicados pelo sacana do espanhol e podemos cair nalguma emboscada .Quando saíram da barraca improvisada vislumbraram por entre as nuvens alguns leves raios de sol. Era um sol envergonhado mas foi o suficiente para perceberam que para voltar para casa tinham de andar na direcção contrária.
Os pedaços de pão que antes não conseguiam tolerar pareciam agora mais agradáveis de mastigar. Precisavam de energia para a caminhada. E embrenharam-se no pinhal, cheios de determinação, rezando para que as nuvens não lhes impedissem o sentido de orientação que haviam definido. De início a caminhada não era difícil. Porém em dado momento e já tinham marchado uns bons quilómetros o pinhal foi substituido por matagal e começaram a subir um monte. A visibilidade voltou a cair e não se apercebiam de nada que lhes fosse familiar. Continuaram a subir tentando manter o mesmo rumo mas as pernas começarem a fraquejar pois o caminho pelo meio do mato era feito tropeçando em pedras, árvores caídas. silvados e declives. A vegetação densa foi substituída por tufos que emergiam do meio de pedregulhos. Olharam um para o outro e disseram ao mesmo tempo: estamos lixados devemos estar a subir as abas da serra onde o bandido do Manolo nos disse que havia guerrilheiros ou soldados. Vamos redobrar a atenção.
O António parou, deitou-se no chão atrás de uns tufos e fez um sinal para o irmão se calar e apurou o ouvido, encostando-o ao solo. Parecia-lhe ouvir barulhos estranhos não muito longe do local onde se encontravam. Podem ser lobos ou soldados, pensava com os botões. Esconderam-se ainda mais mas no movimento fizeram escorregar uma pedra que rolou alguns metros pela encosta. De repente o ruído que haviam detectado parou e o silêncio naquele entardecer sombrio tornou-se pesado como chumbo.
Sentiram alguns passos bem perto e uma voz que naquele linguajar a que se iam habituando chamava alguém dizendo: vem eles estão aqui. A pressão do cano de uma espingarda nas costas fê-los temer o pior. O outro vulto chegou perto, fez com a espingarda um sinal para se levantarem, e murmurou: Marchem na nossa frente com os braços levantados e não tentem fugir pois abriremos fogo.
E lá seguiram em fila, um dos desconhecidos na frente, os dois irmãos no meio e o outro a fechar a coluna. E andaram, subiram e desceram por um emaranhado de mato e pedras e por um trilho que mal se via.
Estavam quase esgotados quando o grupo parou. Ouviram um assobio e de seguida mais dois semelhantes, era com certeza um sinal, pensaram, avançaram mais alguns metros e chegaram a uma pequena clareira entre uns montões de pedras e de mato. O guia fez-lhes sinal para se sentarem. Quando iam recobrando a energia, começaram a tentar ver o que se passava em redor. À frente viram uma gruta cavada na rocha onde crepitava uma pequena fogueira com duas ou três pessoas sentadas à volta. Do outro lado umas barracas meio escondidas e disfarçadas com ramos de pinheiro.
J.Ariemal
(continua)

Quase Memórias



8 - Traídos



Saltaram o muro, pararam à escuta e começaram a marcha, lenta e cuidada. Como o Manolo lhes havia dito não viram ninguém e a povoação ficava já perdida no horizonte.
A chuva recomeçou trazendo com ela o nevoeiro e o frio. Pararam por momentos e praguejaram, maldito tempo. Do mal o menos diz o irmão mais novo. Quanto pior estiver o tempo menos possibilidade haverá de sermos vistos. Tens razão mas o frio chega-me aos ossos e parados parece mais cortante. Voltaram a caminhar e pensaram que já teria decorrido o tempo de marcha que lhes tinha sido dito. E estrada nem vê-la. Será que estamos a seguir o caminho certo, perguntou o Chico? Tem de ser esta a direcção e provávelmente o Manolo não tem relógio e não faz ideia do que é uma hora a andar.
Vamos andar até aquele amontoado de pedras que vês ali ao fundo e tentaremos localizar a estrada ou o pinhal.
Com todo o cuidado agacharam-se atrás do monte de pedras e espreitaram. Não viram nada do que esperavam mas chegou-lhes ao ouvido passos entrecortados com um ou outro gemido. Aguardaram um momento e com o coração prestes a saltar do peito atreveram-se a espreitar. No caminho seguia um grupo de refugiados, homens mulheres e crianças, acompanhado por guardas armados. Recolheram-se de imediato, sustiveram a respiração. Assim permaneceram tempo que parecia uma eternidade. Quando ganharam coragem voltaram a espreitar e só viram bem ao longe vultos indistintos. Respiraram fundo.
Desataram a correr atravessando aos saltos a estrada, embrenharam-se no matagal e só pararam quando sentiam que se tinham afastado o suficiente. Sentaram-se encostados a um grande pinheiro manso, recuperaram o fôlego e sem saber onde estavam e o que fazer.
Será que o Manolo nos enganou ? Eu nunca fui com a pinta dele e lá que ele se dá bem com os guardas isso eu vi. És capaz de ter razão mas agora estamos demasiado cansados para pensar o que fazer. vamos cortar umas giestas fazemos uma barraquita aqui debaixo do pinheiro e tentamos dormir. Estamos suficientemente afastados do caminho e não é provável haver gente nas proximidades pelo que poderemos até enrolar um cigarrito e dar umas fumaças. De manhã alinhavamos as coisas e decidimos o que fazer.

J.Ariemal

(continua)

Quase memórias


7 – Encontros e desencontros
Sentaram-se à lareira e deixaram que o calor lhes aquecesse o corpo e a alma. Despiram as velhas samarras, descalçaram as botas encharcadas e entregaram ao Manolo os sacos contendo o café. Este recebeu-os e sem palavras levou-os para outro compartimento. Ouviu-se um ranger de tábuas. Espreitaram e viram o Manolo que escondia os sacos de café num buraco do soalho. Este reentrou, entregou-lhes um maço de notas velhas e amarrotadas dizendo aqui têm a paga da encomenda. Dividam entre vocês e escondam bem pois podem vir a ser detidos, revistados e vão ter dificuldade em justificar o dinheiro. Assim fizeram. Abriram o forro das samarras e com o alfinete que segurava o forro prenderam as notas o melhor que puderam.
Estive a cozer uns feijões. Aqui têm um prato e uma colher, sirvam-se da panela.
Depois conversamos. E saiu para a rua.
Conversar diz o Xico pelo canto da boca. Como é que vai ser se nós mal o entendemos? Não te preocupes alguma coisa havemos de perceber. Afinal a maneira de falar dele não é assim tão diferente da que conhecemos aos contrabandistas. Sim mas há nele qualquer coisa que não me agrada, mas não sei o quê.
Enquanto os dois viajantes engoliam a parca refeição o Manolo reentrou pegou num pau com que espalhou as cinzas da lareira.
Olhem com atenção. Aqui, e marcou com uma cruz na cinza é onde nós estamos. Traçou uma linha voltou a marcar uma cruz e disse e para aqui é que vamos, não tarda. É uma aldeia chamada La Jola onde vou entregar um carregamento de lenha para o forno da padaria local. Antes de lá chegar passamos por uma igreja em ruínas. Saltem um pequeno muro e escondam-se. Não há casas habitadas na proximidade e por isso não é costume ver pessoas. Seguem esse muro, para a vossa direita, acompanhou com novo risco e mais ou menos duas hora de marcha normal encontrarão uma estrada de terra batida que devem atravessar. Com cuidado pois a estrada já tem algum movimento de pessoas.
Não se deixem ver. Depois de atravessada a estrada, entram num pinhal e sobem nesta direcção, novo risco.
A marcha deverá demorar cerca de uma hora sempre na orla do pinhal. Verão depois uma aldeia meio destruída. Lá encontrarão o Alonso que será o vosso contacto.
O Alonso é um homem de poucas palavras mas é de confiança. Dizem que vão da minha parte ele sabe o que isso quer dizer e levá-los-á ao local onde estão escondidas as crianças que procuram.
Peçam-lhe para vos aconselhar o melhor caminho na direcção da fronteira. Podem ter de fazer um grande desvio mas nem sempre o melhor caminho é o mais curto. Há meia dúzia de dias, um grupo pequeno de resistentes que se refugiam nas fraldas da serra, emboscaram uma viatura militar e roubaram as armas e munições que ela transportava pelo que haverá mais vigilância não só da guarda civil mas também de falangistas armados. Essa parte da viagem é por isso a mais perigosa. Façam-na de noite ou pela madrugada.
Entendido?
Como vos disse vou entregar um carregamento de lenha. A carroça já está preparada é só atrelar o burrito e aí vamos nós. Tu, disse para o irmão mais novo, escondes-te no meio da carga entre os ramos de esteva e de giesta e tu segues comigo como se fosses meu ajudante. Tens um aspecto mais parecido com os trabalhadores locais e por isso passarás sem levantar suspeitas. Se alguém se cruzar no caminho resmungas qualquer coisa que não se entenda e eu direi que tu és assim meio atrasado.
Então como está tudo percebido vamos pôr a carroça no caminho.
Pachorrentamente o burrito lá ia puxando a carga por uma caminho de terra que serpenteava no meio de campos pedregosos, com pequenos declives. Era um andar compassado e dormente que convidava a fechar os olhos. O Xico sentiu um toque no ombro despertou e o Manolo disse-lhe num sussurro. Atenção, além ,depois da curva estão dois guardas escondidos. Não te preocupes, faz como eu te disse e tudo vai correr bem Eu já sei o que eles querem.
Quando se aproximaram um dos guardas postou-se em frente da carroça mas com a arma à tiracolo enquanto o outro dava uma mirada em redor.
Ola Manolo buenos dias. Buenos dias senhor respondeu este. E antes que a conversa continuasse o Manolo pegou num saco que tinha junto aos pés e entregou-o ao guarda.
Este espreitou, esboçou um sorriso e disse. Esta tudo bem podem seguir, afastando-se para a berma do caminho.
O condutor deu um toque com uma varita no lombo da besta e esta arrancou afastando-se lentamente do local do encontro.
Quando dobraram a curva o Xico olhou para o Manolo e com um sinal de cabeça perguntou, meio desconfiado, o que se tinha passado. Manolo disse entre dentes. Os guardas também passam dificuldades e os sacos de café que lhes dei vão fazer-lhes muito jeito.
Continuaram a marcha e passavam perto dumas ruínas. O Manolo olhou em redor, parou a carroça e disse. é agora, chama o teu irmão saltem aquele muro desapareçam e boa sorte.
J.Ariemal

(continua)

domingo, 17 de maio de 2009

Quase memórias


6 – A aventura
Escorregando aqui e ali na caruma molhada dos pinheiros os dois irmãos lá iam seguindo um trilho abandonado que serpenteava serra acima. Seguim curvados protegendo-se do vento da chuva e do frio que naquela noite se faziam sentir. Seguiam afastados dois ou três metros um do outro porque mais não lhes permitia a visibilidade.
Era já noite cerrada quando exaustos pela subida em condições tão agrestes pararam, desviaram-se alguns passos do trilho e sentaram-se encostados aos penedos que pelo menos os protegiam do vento.
Sabiam que a descida para o ribeiro que servia de fronteira iria ser difícil. Deviam procurar seguir orientados apenas pelo hábito, fora dos caminhos e veredas para evitarem encontros inesperados.
Respiraram fundo, pegaram na trouxa e começaram a descer.
Devagar e segurando-se nos arbustros não conseguiam mesmo assim envitar algumas escorregadelas mais ou menos prolongadas. O que seguia na frente parou de repente, agachou-se e estendendo a mão ao irmão que o seguia apontou-lhe um vulto encostado ao tronco de uma árvore mais grossa. Estaria a não mais de dez metros. Ouviram tossicar e o riscar de um fósforo que iluminou por momentos o rosto de um guarda.
Com cuidados redobrados e em pequenos passos afastaram-se para o interior do pinhal e anicharam-se no meio de fetos. Ficaram em silêncio longos minutos. Quando se aperceberam que a sua presença não tinha sido detectada, levantaram-se e retomaram a marcha em sentido perpendicular ao local onde a guarda estava à espreita. Mais uns minutos de marcha e decidiram retomar a descida. O contacto entre os dois era feito por pequenos gestos, cúmplices de quem se conhecia como a palma da mão. Voltaram a parar a meio da encosta e esconderam-se no matagal. Tinham ouvido alguns assobios muito curtos e calcularam que eram os contrabandistas a avisarem-se entre si da emboscada.
Assim estiveram atentos a movimentos ou ruídos suspeitos mas aperceberam-se que os sinais de aviso dos contrabandistas soavam cada vez mais distantes.
Continuando a descida, parando e aguçando os sentidos para ruídos ou movimentos estranhos chegaram perto de um muro de pedra, meio destruído atrás do qual se esconderam. Começava a haver alguma claridade pelo que espreitaram por cima do muro para identificar o lugar onde se encontravam. Não viam mais do que meia dúzia de metros mas imaginaram que estariam à beira do riacho, que corria entre canaviais e cujo saltitar de pedra em pedra era o sinal que se encontravam à beira do salto que os levaria para o outro lado da fronteira.
Num sussurro o Tonho segredou ao irmão: Desviamo-nos muito do nosso carreiro. Quando estivermos do outro lado temos de subir o riacho que se bem me lembro corre entre estes canaviais e teremos de o subir durante mais de uma hora. Para mim devemos ir pela margem do ribeiro abrigando-nos na vegetação e devemos caminhar com cuidado e afastados um do outro. Eu vou primeiro e tu segues deixando algum espaço entre nós. Quando eu parar e me agachar fazes o mesmo. Só saímos do ribeiro quando for altura de encontrar-mos a tal casa que o tio Guilherme nos indicou. Devemos fazer este percurso quando a lua estiver bem alta. As sombras serão nossas amigas e esconderão os nossos movimentos.
Não te esqueças que quando alcançarmos os arredores da casa te deves esconder o melhor que puderes e que só nela entraremos se virmos a alguma distãncia a luz duma candeia que o nosso contacto colocará na janela da casa. Se a não virmos é sinal que a guarda civil ou a tropa estão lá na quintarola ou perto. Mantemo-nos quietos até receber o sinal de luz.
Avança um e depois o outro. Se um for apanhado faz-se passar por um simples contrabandista, abandona o saco com o café e foge, se puder, na direcção da fronteira de volta para o nosso abrigo na serra. O outro esconde-se e retomará o contacto com o caseiro que vai indicar onde se encontram as crianças.
O Xico fez sinal com a cabeça que tudo estava entendido. Deixaram-se ir escorregando pela margem do ribeiro agarrando-se aos arbustros que o bordejavam até sentirem os pés na água. Largaram-se e ficaram enxarcados porque o ribeiro fazia um fundão e a água chegava-lhes às axilas. Fazia uma corrente forte pelo que a subida se ia fazendo a passo de caracol, ora com água pelos ombros ora com água pelos joelhos. Tiritavam de frio e sentiam-se exaustos. Pararam, voltaram a subir a margem do ribeiro e deitaram-se no meio da folhagem. Sem uma palavra olharam-se nos olhos e estiveram quase a desistir. Mas faltou-lhes a coragem. Cerraram os olhos para não deixar escapar alguma lágrima rebelde.
Passados alguns minutos, tremendo de frio e medo e com o corpo dorido, ouviram um galo cantar. Acordaram do torpor onde mergulharam, apuraram os sentidos e ouviram de novo o cantar do galo. Ganharam novo alento e sem palavras pressentiram que deviam estar perto da quinta que procuravam. Deixa-te ficar, disse o irmão mais novo, que eu vou avançar mais uns metros para ver o que nos espera. Se estivermos no caminho certo venho chamar-te.
Rastejou pelo canavial e passados alguns metros vislumbrou à luz da madrugada uma construção de pedra mas não conseguiu ver a luz de sinal. Rastejou de volta até ao irmão e segredou-lhe: Vi uma casa. Deve ser o que nos assinalaram. Depois de sair do canavial dou uma corrida e escondo-me junto à parede junto a um monte de mato que lhe está encostado. Conta até vinte e se não ouvires nada de suspeito faz o mesmo. Eu espero por ti.
Assim fizeram.
Abriram um espaço no monte de mato, que tapava um denso silvado e, mesmo sentindo os arranhões das silvas esconderam-se encostados um ao outro. Puxaram algum do mato para se protejerem do frio e de alguma visita inesperada.
O nevoeiro matinal começou pouco a pouco a esfumar-se, a visibilidade aumentou e sairam para espreitar. E lá vislumbraram uma luzita, bem trémula que parecia perder-se no meio do mato. Estavam no bom caminho e sentiram-se mais afoitos. Até aqui tudo correu bem, mas ainda falta o mais difícil. Havemos de conseguir murmurou o Chico.
Sendo o mais novo, mais afoito e mais esclarecido o Tonho tinha assumido a liderança. Disse para o irmão: daqui em diante temos de ter cautelas redobradas. Avançarei sempre em primeiro lugar, aguardarás por um sinal meu que será sempre aquele assobio meio soprado, e que apenas farei uma vez. Presta atenção e só avanças ao meu encontro se reconheceres o sinal. Se nada te soar dentro de quinze minutos, volta para trás e segue outro caminho. Ou procuras encontrar a quinta onde as crianças estão escondidas ou, o mais prudente volta para casa. Está bem, deixa-me lá ver se o meu cebola está a funcionar ou se o banho o estragou. Puxou do bolso do colete um velho relógio, ainda trabalhava e marcava seis horas da manhã. O Tonho acertou o seu relógio abraçou o irmão e partiu. Pé ante pé deu a volta à casa, parou junto a porta e escutou.
Lá dentro ouviu o mexer numa panela e sentiu o cheiro de fumo que se esgueirava pelas frinchas da porta, Bateu uma duas vezes e a porta abriu-se. Entrou e rápidamente o locatário fechou a porta. A medo perguntou num português raiano, usted é o Manolo? Quem pergunta diz o inquirido?Sou o enviado pelo tio Guilherme para tratar daquele assunto. E vieste sózinho ou trazes companhia? Teve algum receio mas arriscou. Nan lá fora está o meu irmão. Tudo bem podes ir chamá-lo que não há perigo. A guarda civil muito raramente aqui passa pelo que estaremos à vontade para o acerto das coisas. Também devem precisar de secar a roupa e de comerem alguma coisa. Assim como estás se fores visto és tratado como ladrão ou guerrilheiro. Chegou à porta que entreabriu, assobiou como o combinado e não tardou que o irmão surgisse do meio das moitas e se atirasse para dentro da casa.
J.Ariemal
(Continua)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Quase Memórias



5 - Eu sei,eu vi, eu estive lá

E continuou. Já se ouviam os tiros de metralhadora dos carros de combate da legião e os gritos de guerra dos mouros. A resistência que alguns milhares, poucos, de populares mal armados e desorganizados onde eu me enquadrei, foi de pouca dura. Mas não houve rendição. Cada um lutou com o que tinha. O Paco que andava sempre comigo foi ferido. Procuramos o consultório do Pai e nada encontramos a não ser ruínas calcinadas e ainda fumegantes do que outrora fora uma casa. Conseguimos fugir pela fronteira do Caia e eu arrastando a perna ferida, levei o Paco para o Hospital de Elvas a fim de ser tratado. Continuei a fugir evitando a Guarda Portuguesa e escondi-me numas casa abandonadas encostadas às antigas muralhas da cidade. Passados alguns dias fui ao hospital em busca do amigo, de quem não encontrei, nem sinal. Perguntei e um velho conhecido e ele disse-me: Não procures mais. A polícia entrou no hospital, mandou despir os feridos e todos aqueles que apresentavam nos ombros marcas de uso de espingarda, foram entregues aos rebeldes e deles mais nada se soube.
Decidi voltar a Badajoz para saber notícias dos meus amigos. Cocheando e esfarrapado não dei nas vistas. Guiado pelo choro das mulheres e crianças que fui encontrando vagueando sem destino, entrei na praça de touros.
Novo silêncio.
E vi. Centenas, milhares de corpos de homens, mulheres e crianças que enchiam a arena os curros as bancadas. Caídos aos molhos, braços entrelaçados na hora da morte, um cheiro a pólvora e sangue. Uma imagem tão terrível que me fez estremecer de nojo, de revolta e de desejo de vingança. Foi uma cena que não mais me deixou dormir em paz e me acompanhará pelo resto da vida. Sim eu vi os corpos massacrados e assisti à pilhagem de um grupo de soldados marroquinos arrancando dos cadáveres tudo o que lhes parecia ter valor. Vi quebrarem os maxilares para retirarem capas de ouro dos dentes, vi-os cortar dedos para roubarem as alianças, vi-os descalçar e despir os mortos. Sim eu vi tudo isso.
Ao mesmo tempo camionetas de caixa aberta, partiam atulhadas de corpos, alguns ainda com sinais de vida e voltavam vazias para nova viagem até à vala comum, ali logo nos arredores.
Escondi-me no meio dum grupo de cadáveres empilhados e vi que dois legionários esmagavam a cabeça de um homem e que o lançavam para a camioneta. Esse homem era o Dr. Gonzalez.
Soltei um grito de raiva e dor e corri na direcção dos legionários. Deram-me com a coronha das espingardas e só recobrei o conhecimento quando, dentro da vala comum, senti a terra e as pedras que os improvisados coveiros lançavam sobre aquele amontoado de corpos. Rastejei, saí do buraco e sabe-se lá como consegui esconder-me numas moitas ali bem perto. Ao cair da noite fugi, corri, chorei, gritei de raiva , arrastei-me pelas silvas, pelo mato, por caminhos pedregosos que marcava com o meu sangue. Atravessei um ribeiro meio seco, caí e não me lembro de mais nada. Quando acordei estava do lado de cá da fronteira, deitado numa tarimba em casa de uns pastores que me trataram como sabiam e podiam e sem nada perguntarem.
É verdade, tudo o que vos contei é verdade, porque eu sei, porque eu vi e estive lá.
Novamente o silêncio. O Guilherme tinha o olhar fixo na parede onde uma pequena janela deixava passar os últimos raios de luz dum dia invernoso. O rosto crispado, tenso, com um rictus de dor de sofrimento e ao mesmo tempo de determinação. Aquele homem que vivera tamanha tragédia não queria entregar-se. Ainda tinha força para lutar.
O dois irmãos levantaram-se, atiçaram o lume e pegando numa brasa acenderam os cigarros enrolados pacientemmente enquanto ouviam a narrativa. Olharam-se e encolheram os ombros. O mais afoito dirigiu-se ao narrador, deu-lhe uma palmada no ombro e disse:
É uma história muito triste a que nos contou. Mas só não percebemos em que podemos ajudar. Somos uns pobres camponeses, não temos nada para lhe dar senão um pouco do nosso tempo.
O Guilherme estremeceu como se saísse dum pesadelo e sussurrou: A vosssa ajuda e pela qual eu posso pagar não exige heróismo mas tem um pouco de aventura. Trata-se de passar a fronteira como dois vulgares contrabandistas e de irem buscar os filhos mais novos do meu amigo Dr.Gonzalez. A mãe das crianças já morreu, o filho mais velho não se sabe por onde anda e se ainda combate ou já morreu. As crianças têm 7 e 12 anos e vivem quase sózinhas na casa onde se enconderam.
Têm familiares em Portugal que me procuraram e pediram para as ir buscar já que eles estão de partida para o México e pretendem que as crianças os acompanhem. Mas como vêm pelo estado da minha perna inútil eu não consigo.
E lembrei-me de vocês para fazerem a viagem. Não são políticamente envolvidos e sendo pobres não admirará, caso sejam apanhados, que passem por uns simples camponeses tentando ganhar uns cobres com o contrabando.
Mas senhor Guilherme nós nem dinheiro temos para comprar café, ovos ou qualquer outro produto para ir vender a Espanha, disse o António.
Não se preocupem. Vejam os sacos que estão atrás da porta e lá encontrarão dez embalagens de meio kilo de café em cada um, devidamente protegidas por mor da chuva e do cheiro. O que conseguirem ganhar com a venda será também vosso.
Se aceitarem terão de partir ainda esta noite de modo a que passsem a fronteira por volta da meia noite, dado que quer os Guardas Fiscais como a Guarda Civil devem estar ceando. Está uma noite escura, de chuva constante e nevoeiro cerrado e sabendo o caminho não vos será difícil chegar ao local de encontro que vos indicarei. Passarão o dia de Natal escondidos com as crianças e voltarão, por outro caminho logo que se faça noite e antes do jantar.
Virão ter aqui comigo que me encarregarei das crianças até que os familiares as venham buscar.
O que dizem? Posso contar com vocês?
A pobreza justifica que corramos alguns riscos, dizem os irmãos, mas tem que nos indicar os melhores caminhos e os contactos.
Sim, não se preocupem, tenho tudo estudado e darvos-ei todas as informações.
J.Ariemal
(continua)





8

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Quase memórias - 1936

4 - Resistência


Apesar do avanço dos revoltosos pelo sul e pelo norte, eu acredito que a República, com o apoio dos outras democracias ocidentais acabará por vencer.
Pobre Dr. Gongalez como ele se enganou.
Pela minha parte e pensando mais com a alma do que com a cabeça, juntei-me a um grupo de portugueses aventureiros e como tinha experiência da guerra, comandei o melhor que pude esse grupo, atravessamos a salto a fronteira e assaltamos um quartel da Guarda Civil em Zafra para obtermos armas. E lá fomos para a serra para enfrentar o avanço da legião e dos soldados marroquinos que os acompanhavam.
Não havia comando unificado pelo que a resistência foi recuando de posição em posição, sofrendo mortos e feridos sem conta. Outros desencantados abandonaram as armas e pela calada da noite regressaram a suas casas. Vi-me a comandar um pequeno grupo, não mais de 20 homens, constituido por jovens idealistas e camponeses duros. Numa emboscada que fizemos fui atingido por estilhaços de granada que me deixaram a perna quase desfeita. Esta perna quase inútil, que agora não tem nem força para andar quanto mais para me ajudar a suportar o peso das minhas mágoas.
Os meus companheiros carregaram-me às costas, debaixo de fogo e retiraram para Badajoz. Deixaram-se em casa do meu amigo médico e voltaram para a frente de combate. Nunca mais os vi ou ouvi falar deles.
Quando no inicio de agosto as tropas fascistas se aproximavam de Badajoz o Dr. Gonzalez reuniu a família e como eu estava em casa dele pude assistir à reunião.
Disse-nos, com o rosto vincado por linhas de preocupação e a voz trémula e insegura:
Apesar da boa vontade das populações que se têm mantido fiéis à República, os revoltosos, beneficiando do apoio efectivo dos fascista italianos e do regime de Hitler irão vencer esta luta fraticida e como fizeram em Sevilha vão massacrar todos os que se opuserem à sua marcha. Por sua vez a República foi lançada ao ostracismo pelos países ocidentais que através do manhoso acordo de não intervenção irão dificultar ou impedir qualquer rearmamento do exército republicano. Os partidos políticos do regime republicano guerreiam-se entre si e não conseguem definir uma estratégia conjunta para fazer face aos avanços fascistas.
Assim e temendo o pior decidi:
Os meus filhos, a Pilar, a Aparecida e o Paco irão com a mãe para uma quinta que os avós têm nos arredores de Cáceres e lá ficarão até que a situação permita o seu regresso. Eu fico. Não fugirei e continuarei a dar assistência aos feridos e aos doentes. Tu Guilherme deves regressar ao teu País e o mais breve possível. Se um dia a minha família precisar, eu sei e eles sabem, que podem contar com a tua ajuda.
Um silêncio de dor e desespero, lágrimas correndo como um rio foi o cenário que as palavras do médico trouxeram aquela casa.
De repente Paco, o filho mais velho, levantou-se, encarou o Pai e disse sem vacilar: Eu não fugirei. Tenho dezoito anos e ficarei ao lado do meu Pai e se for preciso juntar-me-ei às milícias camponesas que enfrentam os fascistas. Sim, é isso que farei, por minha única vontade e desta posição não abdicarei. Lutarei até ao fim.

Quase sem me aperceber das consequências mas levado pelos sentimentos de amizade, levantei-me e disse: Não tenho outra família que não seja a vossa. Voltar significará prisão. Por isso ficarei. Custe o que custar e que a força da razão e os ideais da liberdade nos ajudem.
E assim se fez.
Mais um pesado silêncio caiu sobre o casebre. O Guilherme baixou a cabeça deixou cair os braços ao longo do corpo como se o relembrar daqueles momentos tivesse reaberto as chagas e consumido as últimas energias.
Com voz trémula e sussurrada, como que com medo de ouvir a resposta, os irmãos perguntaram, e depois?
Bem, depois foi a tragédia. Eu sei, eu vi, eu estive lá.
J.Ariemal

(Continua)























































Quase Memórias

A guerra civil em Espanha


Aqui na vizinha Espanha, em Abril de 1931 a Monarquia foi derrubada e implantada a República. Com ela vieram as esperanças de melhores dias para a população, o fim do poder dos agrários duma chusma de bispos e padres a possibilidade de pensar em voz alta e lutar pelas ideias da democracia e liberdade.Mas os partidos políticos, os sindicatos entretanto criados, nunca se entenderam e estalaram lutas violentas, perseguições, execuções, eu sei lá o que mais.. Eu sabia bem e por experiência própria que a alegria daria a breve prazo lugar à tragédia. A História repete--se.
A ausência de poder, o anarquismo e a desunião foram a semente para uma revolta dos conservadores, apoiados num exército que na sua grande parte sempre lhes fora fiel.
Tal aconteceu. Um grupo de oficiais planeou e realizou um golpe de estado. No ano de 1936 as tropas da legião estrangeira estacionadas em Marrocos sob o comando do Franco deram início à revolta militar e em pouco tempo desembarcaram no sul do País, matando e destruindo todos os opositores até conquistarem Sevilha.
Os irmãos abanavam com a cabeça olhavam-se e segredavam entre si. Mas que diabo quererá o homem? Cada vez percebo menos disse o mais velho.
Como se não tivesse apercebido da inquietação dos ouvintes o Guilherme continuava a sua narrativa, com frases mais surdas e sofridas como que arrancadas do peito e outras mais fortes de raiva mal contida.
Eu tinha contactos próximos com um conhecido médico de Badajoz, cuja casa frequentava e onde falavamos da vida e das experiências, sonhos e certezas de cada um. O doutor Gonzalez falava com entusiasmo da implantação da República em Espanha, da sua esperança na vitória dizendo que isso significava para além do fim duma Monarquia obsoleta, o fim do poder da Igreja Católica, o fim dos latinfundiários, dos capitalistas e de todos os viviam do oportunismo, do compadrio, comendo da mesma gamela a riqueza criada por quem trabalha.
E ele que conhecia a miséria dos campos, a exploração desenfreada dos grandes senhores da terra falava com emoção da intenção do Governo Republicano em aplicar a reforma agrária.
Eu chamava-lhe a atenção para o que se havia passado quer em Portugal quer na União Soviética. As esperanças de liberdade e democracia deram lugar às ditaduras.
Mas ele queria acreditar que o caso da Espanha seria diferente.
J.Ariemal
(Continua)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Quase Memórias


2 – O comunista

Numa casa velha e escura, perdida no meio dos pinheiros foram encontrar o tal Guilherme. Estava sentado a uma mesa, capote pelas costas, boné enfiado na cabeça, sorvendo dum copo de barro, pequenos goles do que pelo cheiro perceberam ser aguardente. Esfregaram as mãos enregeladas, olhando gulosamente para a garrafa em cima da mesa.
Então Senhor Guilherme, aqui estou eu e o meu irmão Xico, para que nos fale do tal negócio, disse o irmão mais novo.
Sem levantar os olhos fixados nas mãos descarnadas e escuras como a casa, respondeu, ajeitando a perna inútil que tinha apoiada numa bengala: Puxem dum banco e do tropeço, sentem-se e tomem um gole de aguardente para ajudar a matar as mágoas e a suportar o frio. Depois falaremos.
Os dois irmãos, candidatos a aventureiros, hesitaram, olharam um para o outro e com um encolher de ombros lá se sentaram e partilharam um pouco de bebida. Passaram alguns momentos em silêncio, que para os visitantes pareceram uma eternidade, até que o dono da casa levantou os olhos e disse:
Antes de falar da proposta, gostava de vos fazer algumas perguntas.
Pois ande lá responderam os irmãos cada vez mais desconfortáveis.
Vocês já ouviram falar de mim? Sabem porque vivo nesta casa abarracada longe dos caminhos e das pessoas?
Ouvimos umas palavras por aqui e por ali. Diziam que o senhor é um comunista e bombista, fugido à polícia e que por isso não era aconselhável ser visto consigo não fosse o diabo tecê-las. Pois, e mesmo assim estão dispostos a fazer o trabalho?
Depende, disse o irmão mais velho e desconfiado. Mas nada podemos dizer sem saber o que quer de nós.
Então para perceberem melhor o que vos vou pedir, vou-vos contar parte da minha vida.
Nasci há cerca de 50 anos, numa pequena aldeia ali para os lados de Elvas, filho único de um professor primário. Estudei em Lisboa onde frequentei, até ao 4º. Ano a Faculdade de Direito. Boquiabertos os irmãos não puderam deixar de comentar – Só tem cinquenta anos? O senhor parece muito mais velho, desculpe lá o mau jeito.
Não faz mal. Toda a gente tem dificuldade em aceitar mas é verdade. As feridas no corpo e na alma, as perseguições, as desventuras e desgostos deixaram as suas marcas neste corpo outrora vigoroso e forte.
Quando da implantação da República, tinha eu acabado de fazer 24 anos, era um seguidor atento das teses revolucionárias e foi com grande esperança que lutei ao lado dos republicanos. Depresssa o desencanto se apoderou de mim, dado o falhanço rotundo dos Governos que se seguiram. O meu Pai que era um fervoroso adepto do Afonso Costa, via nele a figura dum novo Marquês de Pombal, bem me tentava convencer que, mais tarde ou mais cedo a agitação política iria acalmar e a democracia, autêntica, iria ser uma constante permitindo a liberdade a justiça o desenvolvimento dum povo quase por inteiro analfabeto. Mais, quando se dá na Rússia a Revolução de Outubro passei a acreditar que o futuro seria baseado numa democracia socialista cabendo aos trabalhadores o verdadeiro papel. Seria assim “de cada um segundo a sua capacidade a cada um segundo a sua necessidade”. Aderi de corpo e alma a estas ideias tão certas quanto, sei agora, utópicas
Fui mobilizado para o exército e enviado como tenente de uma Companhia de soldados esfarrapados, famintos e mal armados para combater a máquina alemã na frente da Flandres. Vi morrer quase todos os que me acompanharam e quando o armísticio foi declarado e se alcançou a Paz, regressei a Portugal e à velha casa, vazia, pois quer o meu Pai quer a minha Mãe tinham, entretanto,falecido.
O narrador fez uma pausa, olhou para os dois irmãos e disse: vocês devem estar a pensar o que é que isto tem a ver com o negócio que aqui nos trouxe. Tem tudo e talvez nada, mas tenham paciência bebam mais um copo e deixem este velho desfilar as suas memórias. Depois lá chegaremos.
Como vocês sabem, em 1928, em consequência de um golpe de estado o Salazar tomou o poder tratando o País como se fosse uma coutada e ele o encarregado. Por isso me tornei comunista, fui preso, torturado para denunciar camaradas e passei três anos nos calabouços sem nunca ter sido julgado. Quando saí trazia agarrado à pele o rótulo de bombista e comunista e todas as portas se me fecharam. Regressei à minha velha casa no Alentejo, donde não tirava grande sustento mas ia dando para sobreviver.
Formei o meu ideário político lendo os clássicos, e textos do Capital de Karl Marx e outros textos de Lenine. Não se esqueçam que a revolução na Rússia era relativamente recente e exerceu um fascínio para os jovens como eu. Daí dizerem, com alguma verdade que eu sou comunista. Onde ia e passava toda a gente dizia, alguns com admiração, outros com ódio, ali vai o Comunista.
J.Ariemal
Fim do segundo capítulo

sábado, 9 de maio de 2009

contos datados - 1936


QUASE MEMÓRIAS


1 – Encontro no meio do nada

No entardecer de um dia cinzento e chuvoso do mês de Dezembro, do ano de 1936, um homem caminhava, penosamente, serra acima por entre um souto de castanheiros bravos, protejendo-se da chuva e do frio com um capote improvisado, que mais não era do que uma saca de serapilheira, tornada parcialmente impermeável pelo azeite que escorria do carregamento da azeitona.
Numa das mãos, servindo de amparo, levava duas ou três varas secas de castanheiro bravo, que eram, ao mesmo tempo, o instrumento de trabalho na vareja das oliveiras.
Parou por momentos a sua caminhada e sentiu o cheiro do fumo que em pequenos novelos, se espraiava no souto.
O meu irmão já deve ter chegado, pensou o nosso caminhante e avançou um pouco mais até a uma pequena clareira onde um amontoado de ramagem de pinheiro e giesta formava uma pequena cabana.
Esgueirou-se, curvado, por um buraco aberto na folhagem e deixou-se cair sobre um monte de fetos. Sentiu o calor do pequeno lume que crepitava a meio da cabana. Respirou fundo , esgravatou os bolsos das calças ensopadas e de lá tirou um livro de mortalhas e um pacote de tabaco.
Começou a enrolar o cigarro, como se de um ritual se tratasse e olhou então para o vulto na sua frente.
Oh Chico, Isto é que está um tempo! Venho encharcado até aos ossos, moído de 3 horas de viagem serra acima, depois de uma semana de trabalho a colher a azeitona na herdade do Trindade e a pensar comigo mesmo que vou chegar a casa com meia dúzia de escudos que não vão chegar para pagar a conta da mercearia do Valentim.
É a nossa vida, sentenciou, finalmente o irmão. Levantou os olhos, encolheu mais os ombros, atiçou uma brasa e chegou lume ao fumador enquanto lhe dizia com uma voz profunda, seca como a pele que lhe cobria o rosto crestado e moído de trabalho e privações, e atirou:
O Tonho ainda trazes alguma coisa que se coma?
Olha, de caminho rabisquei umas castanhas, meio greladas, que podemos assar nas cinzas e ainda tenho um bocado de toucinho que não fui capaz de comer pois cheira a ranço que tresanda.
Com a fome que tenho, um bocado de toucinho assado na braza e as castanhas devem dar para enganar a fome, eu que até já sinto a pele da barriga encostada às costas.
Mas oh Chico, a gente tem de dar uma volta à nossa vida, temos de deitar mão a qualquer coisa que nos aguente a família até à Primavera.
Fazer o quê ? Roubar, não estou para aí virado.
Mais um silêncio e como se as palavras fossem arrancadas do fundo o Tonho, irmão mais novo, respondeu.
Eh pá nada disso. Enquanto colhi azeitona na herdade do Trindade, sabes aquela que fica ali para os lados de S.Julião, conheci um homem que me disse que se eu estivesse disposto a arriscar, ele me proporia um negócio que me podia dar uns escudos, bem mais do que ganharia em toda a fega da azeitona.
Oh Tonho mas tu conheces o homem?
Não, nunca o havia visto sequer, mas gostei de falar com ele pois o falar dele era bem mais claro do que as nossas conversas. Desconfio desses faladores. Já encontrei alguns e ia-me dando bem mal e tu sabes bem que quando me envolvi com uns aprendizes de contrabandista ia acabando agarrado pela Guarda.
Mas a fala deste homem nada tem a ver com os doidos com que te meteste. Este homem fala da exploração dos trabalhadores e contou-me estórias vividas na guerra civil aqui ao lado.
Já percebi. E digo-te mais, esse homem deve ser o Guilherme Costa, o cocho, e é um comunista. Vais arranjar algum trinta e um com a Polícia política e eles não são para brincadeiras. Num abrir e fechar de olhos acabas a apodrecer na prisão. Por isso não contes comigo.Em casa tenho filhos para criar. E dito isto que lhe havia provocado um arrepio espinha acima , recostou-se, fechou os olhos e pareceu adormecer.
Decorridos alguns momentos levantou-se da cama de fetos e disse para o irmão. Mas afinal qual era o negócio que o Cocho te propôs?
Pensava que estavas a dormir, mas afinal alguma coisa de ficou a moer a cabeça, ripostou o irmão. O certo é que não sei qual o negócio porque o tal Guilherme me disse que se estivessemos interessados o deviamos procurar em casa dele, uma casita que tem ali para os lados de Arronches e ele nos diria o que havia de dizer. Só que tem pressa e só pode esperar até amanhâ à noite, porque o que há a fazer tem de ser feito na noite de Natal. Diz ele que é quando o risco é menor pois os guardas deste lado estarão no quentinho da consoada.
Afinal sempre há risco, disse o irmão mais velho e experiente, mas estou a sentir qualque coisa em mim que me diz que talvez seja bom ouvir o que o homem tem a dizer e depois logo se vê.
Combinado, vamos passar pela casa do Cocho e para isso partimos logo que clarear.






sexta-feira, 8 de maio de 2009

Contos datados


OCASO

Tinha sido um dos tais dias. Dia de reunião do CA para analisar o 1º. Semestre e previsões para o segundo.
Começara pela manhã com apresentação e discussão sectorial. Á volta da mesa, sobraçando dossiers e portáteis com dados, gráficos, mapas, power point,etc. todos os chefes de divisão. Cada um defendeu os números que apresentava, mas com nervoso pouco habitual. Afinal todos estavam muito longe dos objectivos a que se tinham comprometido para poderem beneficiar dos prémios. Ensaiavam desculpas esfarrapadas quando qualquer pessoa com bom senso sabia que os objectivos eram uma utopia.
Depois dum almoço ligeiro a reunião com a Comissão Executiva.
Ao tomar conhecimento da situação do negócio o CEO chegou à conclusão habitual. Virando-se para o Director Financeiro e com toda a distância e frieza que lhe eram peculiares, determinou.
É preciso cortar nos custos fixos promovendo a reestruturação dos serviços administrativos, implementando a estratégia de serviços partilhados devendo muitos deles serem prestados em regime de out-sourcing e em consequência promover a redução do número de funcionários.
Ainda pediu a palavra para contestar a decisão mas, todos os intervenientes aliviados por terem encontrado um responsável, aplaudiram a decisão do Chefe. Como era vindo a ser prática corrente.
Sentiu-se cansado sem força anímica. Queria chamar a atenção para os verdadeiros problemas da Empresa mas as palavras sairam-lhe enroladas e sem força. Desistiu.
Entrou no gabinete sobrecarregando os dossiers que deitou para cima da secretária. Sentou-se na poltrona, respirou fundo e cerrou os olhos.
É preciso reduzir os custos com o pessoal. Apresente-nos as projecções para o fim do ano já com os resultados das medidas que vai tomar. Corte a direito. Estas palavras martelavam-lhe a cabeça e feriam-lhe os sentidos.
A cabeça latejava e parecia rebentar.
O sr. Doutor precisa de alguma coisa? Perguntou da porta entreaberta a solícita secretária.
Não, tudo bem. Traga-me um copo de água e depois pode sair. Tenha um bom fim de semana.
As dores de cabeça iam aumentando a cada momento.
É preciso cortar nos custos. Tem de reduzir o seu pessoal. Refaça as contas e ..., mas será que não consigo ter um momento de paz, perguntou-se? Agitado e perseguido pelos pensamentos levantou-se e começou a caminhar na sala de parede a parede. Parou um pouco,bebeu um golo de água.
Aproximou-se da janela. Abriu os estores e olhou para o sol que mansamente se escondia no horizonte.
Tem graça, pensou, ocupo este gabinete à mais de quatro anos e nunca me tinha apercebido da beleza da paisagem.
Voltou para a cadeira, virou-a no sentido da janela e continuou a olhar o lento esconder do sol,
e as nuvens esfarrapadas que se iam docemente deslocando, como barcos à vela navegando à bolina..
É preciso reduzir custos e promover despedimentos. É preciso....
Mas esta dor de cabeça que não me larga! Fechou os olhos e sentiu algum alívio. Abriu uma gaveta da secretária e remexeu procurando uma embalagem de comprimidos que se lembrava ali ter guardado.
Encontrou, meteu um, dois, talvez mais na boca, empurrou com água.
Sentiu-se melhor. Ajeitou-se melhor na cadeira, abriu os olhos procurando as nuvens ou seriam barcos? que tinha visto no horizonte.
O sol mergulhou e dele apenas via alguns raios que tingiam de diversas cores o céu.
Uma luz intensa, de cor indefinida, parecia guiar os barcos ou seriam nuvens? por um caminho estreito e escuro.
Cerrou lentamente os olhos, a luz continuava a indicar-lhe um caminho pelo qual se ia deixando, levemente, transportar e a dor de cabeça ia desaparecendo. Sentiu-se ausente mas feliz.
A cabeça descaiu sobre o peito. A respiração foi ficando suave, tão suave que nem se sentia. Deixou-se ir, nos barcos do seu imaginário. Flutuando leve, leve como uma pena embalada pela brisa.

J.Ariemal