sábado, 6 de junho de 2009

Contos datados 2008


PLAY TIME

Era uma vez um País de gente anafada, ambiciosa, indolente mas sobretudo habilidosa.
Uma elite com os mesmos predicados mas com superior espírito de iniciativa
decidiu brincar e estudar a construção de uma pirâmide tão grande que fizesse corar de vergonha os monumentos do Antigo Egipto.
Reunidos num dos resort de luxo, entregaram ao gabinete de projectos “Finance Capital,inc.” a elaboração de um ante-projecto de construção da pirâmide, exigindo que ela fosse diferente do que se conhecia.
O gabinete elaborou os estudos prévios que previam a construção de uma pirâmide invertida. A base de sustentação seria um exercício de equilibrio entre uma base de reduzidas dimensões e o seu crescimento em altura a largura. Era um projecto arriscado, engraçado, mas com estimativa de lucros fabulosos pelo que o ante-projecto foi rápidamente aprovado.
Não era um esquema verdadeiramente inédito, porque já alguém se atrevera a este tipo de construção mas a sua dimensão e complexidade transformava-o num desafio. A construção foi entregue ao “International Investements Fund,” empresa do grupo “ Free Market and Private Equity Org.”
Para racionalizar custos e maximizar os lucros a pirâmide deveria ser construída sem alicerces estruturada em milhões de contratos de hipoteca sobre casas, por sua vez desdobrados em inúmeros produtos derivados, hedging funds, titularização de dívida pública, warrants, obrigações de alto risco, contratos de financiamento à compra de armamento, acordos para o financiamento da montagem de lavandarias adequadas ao tratamento do pó branco, vindo directamente das melhores refinarias.
Juntaram-se uns especialistas em manipulação de cotações, analistas de mercado, professores de finanças e outros espertos da moda para de papel em papel, uns sobre os outros, ligados por uma teia de mentiras, desleixos e incompetências construirem o plano de negócios, ou seja a pirâmide. Começaram a inundar o mercado com produtos inovadores que garantiam uma retribuição muito acima do habitual. A rede de comercialização foi entregue a grupos bancários, companhias de seguros e a uma bem montada rede de “brokers”.Cresceu e internacionalizou-se. A experteza de alguns, a ganância de muitos e a saloisse de muitos mais forneceram a massa crítica indispensável ao desenvolvimento do negócio.
Os resultados não podiam ser melhores. Era um fartote de ganhar dinheiro com base em produtos que já ninguém sabia quanto valiam e onde estavam no meio da embrulhada, mas isso não era sequer importante.
O conceito assim tão inovador e de sucesso despertou o interesse dos empreendedores de outros Países e a fórmula mágica da construção da pirâmide foi-se disseminando e novas obras nasceram e cresceram.
Até que um belo dia, por descuido ou menor cuidado das Autoridades competentes, uma criança se aproximou da pirâmide principal e puxou um papel com números cheios de zeros.
Imediatamente a pirâmide começou a oscilar.
Os construtores alarmados reuniram-se de imediato com os consultores habituais. Que papel era este que ameaçava a construção, perguntavam? Os especialistas em engenharia financeira analisaram o raio do papel que mais não era do que um produto derivado sobre hipotecas cujo valor estava mais de cinquenta por cento acima do valor real das casas.
Como tratamento recomendaram reequilibrar a pirâmide injectando dinheiro no núcleo.
Foi uma solução que apenas adiou o desmoronamento. Alguém pôs a boca no trombone, o pânico espalhou-se e o estrondo com a ruína ouviu-se em todo o mundo. Tocaram os alarmes. Toca a injectar mais dinheiro mas era tarde demais.
A criança havia criado com o seu gesto o colapso da construção e a tragédia consumou-se. Afinal a pirâmide não passava de uma torre de Babel assente em qualquer coisa que já ninguém sabia exactamente o que era.
Em todo o mundo, os ratos, sempre previdentes, foram os primeiros a saltar e esconderam-se a bom recato em lugares exóticos.
Os gananciosos converteram-se em ingénuos e foram logo a correr gritar por ajuda. Bateram à porta das Autoridades que afinal, veio a saber-se mais tarde, nunca tinham reparado na estranha pirâmide que lhes crescera nas barbas, e pediram a garantia do reembolso das suas poupanças. Diga-se em abono da verdade que com o desmoronamente haviam perdido dois terços das suas fortunas e não fora o cuidado de manterem em bom recato alguns milhares de milhões estariam nas ruas a pedir esmola.
Os lorpas ficaram para o fim. Lorpas eram e lorpas hão-de ser. Sempre assim foi ao longo dos tempos. Afinal eles são indispensáveis para pagarem a pirâmide e a próxima construção, porque mais tarde ou mais cedo “the show must go on”.

J. Ariemal

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Quase Memórias



15 – Capítulo final

O resto do caminho não foi difícil. Num pardieiro abandonado nos arredores da aldeia de la Lagosera encontraram o resto do grupo.
A noite começava a cair mas Dolores pensou que o tiroteio tivesse alertado a guarda ou tivesssem encontrado os cadáveres. Assim, disse ela, apesar do cansaço vamos conduzi-los até perto da fronteira Portuguesa.
O Chico colocou a Aparecida às cavalitas fizeram a coluna que marchou por uma vereda sem sinais de passagens recentes . À frente Rámon indicava o caminho e marcava um andamento acelerado. Parou ao fim de quatro horas de marcha, noite cerrada mas sem nevoeiro, chamou Dolores e o António e duma pequena elevação apontou à distância uns raios de luz. Ali é uma aldeia Portuguesa cujo nome não recordo. Mas sei que fica perto de outra maior que tem o nome de Arronches. Para lá chegarem seguem uma ribeira que irão encontrar dentro de meia hora de caminho. O resto do caminho é com vocês.
A mulher olhou para os dois irmãos, fez uma tímida carícia na cabeça das crianças e disse. Vá, daqui em diante não vão precisar da nossa ajuda. Oxalá tudo vos corra bem mas lembrem-se de nós e de outros que continuam a lutar e a morrer em nome da República.
António abraçou comovido os companheiros começou a andar, parou voltou atrás e perguntou: O que vai ser de vocês, o que tencionam fazer?
Dolores encolheu os ombros dizendo. Nós vamos tentar chegar a Madrid. São mais de quatrocentos kilómetros de distância em zona inimiga. Mas é em Madrid que tudo se irá resolver. Lutaremos ao lado dos nossos irmãos e se tivermos de morrer, pois morreremos. Mas de pé, de armas na mão e de cabeça erguida.
Nota do autor:
“Quase memórias” é ficção, mas inclui factos baseados em histórias que guardei e que me foram transmitidas por meu Pai.
Como se sabe, a guerra civil de Espanha foi a última guerra romântica. Lutaram ao lado da República, escritores, intelectuais e artistas de todo o mundo.
Mas foi mais, foi o prelúdio de uma época de trevas que se abateu sobre a Europa.

Em memória de meu Pai
J.Ariemal
29 de Maio de 2009



J.Ariemal

2009/04/25

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Quase Memórias



14 – O encontro


Quando a luz da madrugada, meio envergonhada começou a despontar, Dolores aproximou-se do Antonio e do Chico. É agora que vamos correr o maior perigo. Tu, disse virando-se para o António, és mais novo e não tens o aspecto de guerrilheiro. Vais comigo à povoação e trazemos as crianças. Temos de largar as armas e assumir o aspecto de um casal que vai às compras. O Rámon levará o resto do grupo e as nossas coisas para a aldeia de la Codesera. No local onde já uma vez estivemos escondidos aguardará por nós e pelas crianças. Depois dali até à fronteira é relativamente perto e não costuma haver patrulhas. Se tudo correr bem, hoje à tarde poderão estar do outro lado e perto da povoação Portuguesa de Arronches. E vocês perguntou o Chico? Nós? Nós seguiremos o nosso destino.
Enquanto o António se arranjava o melhor possível, deitando fora os agasalhos rotos e sujos Dolores afastou-se um pouco e passado algum tempo apareceu vestida de camponesa, com lenço na cabeça disfarçando a enorme cabeleira, um pequeno saco de pano e um porta moedas numa das mãos. Preparou uma pistola walter de 9 mm, colocou o carregador, hesitou um bocado como a pensar o melhor local para esconder e optou por entalar a arma na cintura da saia por debaixo do avental preto que usava. Colocou-se ao lado do António e comenta para os camaradas. Parecemos ou não um casal que vai às compras? Acenaram que sim. E é isso que pretendemos mas para prevenir levo aqui o cartão de identidade, e bateu com a mão no local onde guardara a pistola. Vamos que está na hora de abrir o comércio na aldeia. Como é dia de mercado haverá mais gente na praceta e isso favorece-nos.
Os dois grupos separaram-se cada um seguindo o seu caminho.
Dolores e António entraram na povoação, aparentando a maior descontracção e até compraram numa vendedeira meia dúzia de laranjas e alguns frutos secos que arrumaram no saco. Ñotaram que havia muito movimento de carros militares e legionários espalhados pela aldeia. Deve ser consequência dos combates de ontem. Eles estão à procura de resistentes disfarçados entre oa habitantes, segreda Dolores.
Na praceta existia uma pequena Igreja e o campanário chamava os crentes para a primeira missa. Aproveitaram e por uma porta lateral entraram e sentaram-se junto dos assistentes, umas dúzias de mulheres vestidas de preto e dois ou três homens civis e alguns fardados como a guarda civil.
Assistiram à celebração e seguiram os ritos habituais. Quando saíram, seguiram uma mulher já de certa idade e que caminhava por uma ruela estreita, como são as ruas das aldeias. A mulher parou à porta de uma casa térrea, bateu e a porta foi-lhe aberta. Entrou mas deixou a porta entreaberta. Nesse momento Dolores aproximou-se olhou em redor, fez sinal para o companheiro que a seguiu e entraram na habitação. Porta fechada as duas mulheres abraçaram-se com força e uma lágrima escorreu-lhes pela face. Esta é a minha Irmã Maria, disse Dolores. Saíram as duas da sala, estiveram a conversar no quarto e o António apenas entendeu que Dolores dizia à irmã que iam pelas crianças. Passou algum tempo que António aproveitou para enrolar um cigarro. Estava difícil pois as mãos tremiam-lhe e a mortalha estava molhada. Retirou do lume que crepitava uma brasa com a qual acendeu o cigarro. Recostou-se, expirando o fumo e olhando para as figuras. Pensava há já quanto tempo durava a aventura para que havia arrastado o irmão. E quanto haviam passado. Reconfortou-se pensando, agora estamos prestes a cumprir a promessa ao velho Guilherme e a regressar a nossa casa.
As duas mulheres reentraram na cozinha, afastaram um pouco os cortinados de uma janela e com a claridade o António verificou que com elas vinham mais duas pessoas. Sentiu um frémito que não sabia ser de medo ou de comoção. A mulher que dava pelo nome de Maria pegou na mão de uma rapariga que não teria mais de 12 anos e disse: Esta é a Pilar e esta pequenita pendurada na saia da irmã é a Aparecida. São as filhas do Dr. Gonzalez que eu recolhi na rua quando mendigavam de porta a porta um pedaço de pão.
Não são faladoras porque muito sofreram. A Pilar mostrou toda a sua coragem quando após a morte da Mãe e a prisão do irmão mais velho, tomou conta da pequenita e com ela andou a bater de porta em porta, nas casas dos antigos amigos dos Pais que fingiram não as conhecer.
Estão comigo já há mais de um mês, nunca as vi sorrir nem chorar, nunca saíram de casa. Mas eu senti nelas a ternura que não conseguiam disfarçar quando eu as acariciava. Agora que podem voltar para a família irão esquecer as desgraças e as desventuras que, como tantos outros sofreram nesta terra. Eu sentirei saudades delas e aqui viverei com as minhas recordações.
Serviu um púcaro de café, pediu desculpa por não ter açucar, e uma fatia de pão a cada um. Comeram em silêncio.
Depois saiu da cozinha e voltou com dois chailes pretos, já coçados e deu-os às meninas para se protegerem do frio. Trazia ainda uma sacola que entregou a Dolores dizendo ser um pão e umas azeitonas para matarem a fome na viagem.
Com a voz embargada pela comoção aperguntou :Será que te voltarei a ver minha irmã?
Não creio. Sabes que eu tenho de seguir o meu caminho. Aquele que jurei sobre a campa dos nossos pais do meu homem e dos meus dois filhos. Seguirei lutando até que uma bala misericordiosa me leve para junto deles. Que Deus te guarde e de guie, retorquiu a irmã.
É melhor partir-mos ao encontro dos companheiros. Eu vi que há falangistas na vila mas não me parecem ser conhecidos e poderemos passar por eles como uma família de regresso a casa. Por isso é melhor fazer o caminho de dia e pela estrada. Se os falangistas nos perguntarem alguma coisa deixem-me falar a mim. Se eu vir que eles desconfiam, farei sinal. O António foge pelos campos levando as crianças e eu falarei com eles, com a minha fiel companheira que trago aqui debaixo do avental. Seguirei depois no vosso encalce. Mas, António, não esperem por mim, sigam sempre nos campos que ladeam a estrada até ao local onde vos espera o resto do grupo.
Fez uma carícia na cabeça das crianças, aconchegou o casacão e o lenço preto da cabeça, entreabriu a porta, espreitou e não vendo nada de suspeito saíram para a ruela.
Atavessaram a praça central da aldeia, sem despertar atenção. Cortaram à direita quando um homem de idade se cruzou e sem parar lhes sussurra: Voltem para trás e tentem ir pela rua que passa por detrás da Igreja. Aqui em frente os falangistas estão a controlar e a pedir os documentos a todos os viajantes. Dito isto sempre sem olhar, o desconhecido esgueirou-se apressadamente para um beco e deixou de ser visto.
Como se tivessem esquecido de alguma coisa, o grupo arrepiou caminho e tomou a direcção que o desconhecido lhes havia recomendado.
Sem sobressaltos de maior lá seguiam pela estrada quando, já longe da aldeia dois homens fardados e armados lhes surgiram na curva da estrada.
Mandaram parar e aproximaram-se. A Dolores reconheceu um dos homens como sendo Honório um conhecido ladrão que trabalhava para os revoltosos e preparou-se. O António percebeu o perigo, baixou-se para atacar os cordões das botas e disse entre dentes: Pilar quando me levantar pego na tua irmã ao colo e vou fugir da estrada para nos esconder-mos no meio daquelas árvores. Segue-me não pares e não olhes para trás.
Os dois falangistas aproximaram-se mais da Dolores e com as espingardas apontadas riram e comentaram. Já ganhamos o dia. Olha lá quem nos veio cair nas mãos. A chefe dos terroristas que a guarda civil procura. A Dolores aparentando pânico e medo ajoelhou-se e disse. Não me façam mal. Não sou quem vocês dizem. Tenho família para criar.
Eles riram-se e cometeram o erro de olhar para o homem e para as duas crianças alguns passos atrás, que fugiam pelo meio do mato. Foi o tempo necessário para a Dolores sacar da pistola disparar, atingindo o Honório que caiu esvaindo-se em sangue. O companheiro, largou a espingarda e começou a fugir. Não foi, longe pois a Dolores continuou a disparar derrubando-o com dois tiros certeiros.
Quando ouviu os tiros o António deitou-se no chão arrastando consigo as crianças. Soergueu-se e espreitou e o que viu não esqueceria mais.
Dolores aproximou-se do Honório que com as duas mãos procurava estancar o sangue que corria aos borbotões do peito. A sangue frio encostou a pistola à cabeça do moribundo e disparou um, dois tiros gritando: Morre porco traidor, que as balas que te cravei sejam a paga e a vingança daqueles que denunciaste, violaste e torturaste.
Depois pegou nas pernas do cadável puxou-o para fora do caminho e para o meio dos arbustos. Voltou à estrada fez o mesmo ao outro cadáver.
Recolheu as espingardas e as munições dos dois falangistas, e entrou nos campos.
Depressa encontrou os companheiros e perante o olhar surpreendido do António, só disse. Aqueles tiveram o que mereciam. Apenas o que mereciam. E nesta guerra, como te apercebeste não há hesitrações. Ou eles ou nós.

J.Ariemal

(continua)




terça-feira, 26 de maio de 2009

Quase Memórias



13 – Escaramuça

Retomaram a marcha. O Rámon que era daquela zona guiava o grupo com forte andamento. O som das explosões era cada vez mais longínquo. Os portugueses andavam, esquecendo o cansaço que os fazia tropeçar com frequência mas não escondiam o nervoso. Ao aperceber-se disso Dolores aproximou-se e segredou: É a primeira vez que se vêm metidos nestas coisas, não é verdade? Assinalaram que sim, esta esboçou um sorriso e disse. Eu avisei de que têm de ter confiança. Não tenham medo.O barulho dos explosões e dos tiros de espingarda e metralhadora que já mal se ouvem não são perigosos para nós. Eles estão a atacar o local que já abandonamos há bastante tempo e quando se aperceberem que estão a atacar fantasmas já nós estareremos a salvo. O que temos é de evitar ser vistos pelo avião e por isso vamos andar sempre escondidos pelos pinheiros.
Como tinham previsto os nacionalistas tinham espalhado pequenos grupos armados. Quando o pequeno grupo se aproximava da estrada o guia, Rámon, faz sinal de perigo, chama a Dolores e aponta-lhe um nicho ne berma da estrada onde três milicianos se encontravam refastelados, meio adormecidos.
Voltaram para trás e pararam a distância conveniente, fora da visibilidade dos milicianos. Dolores toma a decisão de atacar. Diz, não sabemos se é um grupo isolado ou sentinelas. Mas estão no nosso caminho e nosso destino é chegar aos arredores de Benavente. Vamos fazer um ataque rápido e de surpresa e imediatamente retomamos a marcha em andamento esforçado para nos afastarmos do local sem descurar o nosso objectivo, que é os arredores da vila. Só aí poderemos descansar e preparar o dia de amanhã. Vai ser duro mas temos de conseguir chegar pelo cair da noite. Até lá pouco barulho e olhos bem abertos. Se virem ou ouvirem algo fora do normal, param e aguardam que se faça o reconhecimento. Só retomarão a marcha à minha ordem e, atenção, parados ou a andar não temos tempo para comer e nem pensem em acender um cigarro.
A Dolores chamou o Rámon e disse-lhe: tu nasceste nesta zona és capaz de orientar o grupo de noite pelo meio do mato até as proximidades de Benavente. Logo que eu e o Carlos iniciemos o ataque atravessas a estrada e segue o caminho. Não esperes por nós. Quando tivermos eliminado os emboscados depressa te apanharemos.
Fez sinal ao Carlos para se juntar a ela, prepararam as armas e uma granada. Rastejando, foram-se aproximando do objectivo e quando estavam bem perto lançaram a granada e romperam pelo grupo aos tiros. O ataque durou pouco tempo. Apanhados de surpresa os milicianos não tiveram tempo de fugir ou responder e foram abatidos.
Pegaram nas armas do inimigo que colocaram a tiracolo recomeçaram a marcha depressa encontrando o restante grupo que os precedia.
Vamos seguir muito perto um dos outros. Para não nos perdermos agarrem a mochila do companheiro da frente. Quando encontrares um bom local montaremos o acampamento improvisado. Não pode ser é muito longe da povoação. Sem problema, respondeu o Rámon. Conheço o sítio como a palma das minhas mãos e sei do local conveniente para acampar-mos.
Marcharam mais umas horas sem incidentes. A noite já ia adiantada quando o Rámon fez alto e apontou um aglomerado de arbustos altos. Daqui até à povoação não é mais de uma hora de marcha. Não existem casas nas redondezas. Então diz Dolores, é aqui que vamos finalmente descansar, que bem precisamos.
Ninguém se preocupou em montar estruturas para o acampamento. Estavam tão cansados que, apesar da chuva e do frio, se deitaram simplesmente no chão.
O grupo espalhou-se num pequeno círculo de modo a que enquanto descansavam montarem a segurança.
Os Portugueses sentiam estar perto do final da sua aventura e raganharam as forças mesmo sem tomarem qualquer alimento. Os guerrilheiros, habituados a movimentações duras e frequentes, puxaram das mochilas para se recostarem e delas retiraram pão e carne de porco fumada que começaram a comer com evidente satisfação. Cobriram-se com o capote, fecharam os olhos e dormitaram até ao romper do dia.


J.Ariemal


(continua)



domingo, 24 de maio de 2009

Quase Memórias




12 – Debaixo de fogo




O primeiro grupo já havia partido há um bom bocado quando a sentinela assinala que um pequeno avião estava a sobrevoar a serra, voando em círculos.
A chefe guerrilheira não teve dúvidas que o avião procurava a presença do grupo para orientar os tiros de morteiro e de artilharia.
Como já tinham montado as armadilhas com granadas de mão ligadas por fio disfarçado entre as pedras e o mato que bordejava o local onde se encontravam mandou recolher os companheiros para a trincheira que dominava a encosta onde o ataque se desenvolvia.
Os tiros de morteiro e algumas esporádicas rajadas de metralhadora, estavam longe de atingir a trincheira. Como não havia resposta os milicianos sentiram-se mais à vontade e correram pela encosta até muito perto do local de impacto dos morteiros. O fogo parou enquanto o avião de reconhecimento passava em círculos pelo cume do monte. Os artilheiros corrigiram o tiro de morteiros e as granadas rebentavam já relativamente próximo do local de abrigo dos guerrilheiros.
Para os dois irmãos era a primeira vez que se encontravam debaixo de fogo e não escondiam o seu nervosismo. Apercebendo-se do facto Dolores aproximou-se dizendo-lhes para estarem tranquilos mas prontos para a retirada logo que ela desse a ordem.
O bombardeamento cessou e os pelotões de assalto avançaram encosta acima fazendo fogo de espingarda mas duma forma aleatória. O capitão chamou os chefes de pelotão para uma pequena reunião. Tinha acabado de falar pelo rádio com o Comandante e chegado à conclusão que teriam de prescindir do apoio dos morteiros e combater corpo a corpo com os guerrilheiros que, pensavam, estariam escondidos entre as fragas da serra.
Recomeçaram a subida, vasculhando cada monte de pedras ou mancha de arbustos mas como nada encontravam descuraram a segurança.
Entraram numa zona menos abrupta e de repente um dos soldados acciona uma das minas colocadas pelos guerrilheiros. Houve um alarido, gritos dos feridos e ordens para abrir fogo indiscriminado. O local onde se encontravam era o que os guerrilheiros dominavam com campo de tiro aberto. A metralhadora manejada pelo Ramón e municiada pela Dolores abriu fogo em rajada apanhando de surpresa os atacantes.
Carlos e o Fadagosa despejavam tiros de espingarda seleccionando os alvos. O Capitão foi atingido e os milicianos sem comando correram encosta abaixo até ao centro de comando da operação.
O Comandante deu ordens para o reagrupamento da força de ataque, destacou mais uma companhia e reiniciou a subida, ordenando que os morteiros voltassem a bombardear o cume do monte.
O interregno era a ocasião esperada pelo pequeno grupo de guerrilha para se retirarem.
Sem atropelos e de forma ordenada começaram a descer a serra pela encosta oposta, por um caminho que bordejava declives mais ou menos acentuados e na sua base entrava num pinhal denso.
Os estrondos com o bombardeamento pareciam cada vez mais afastados quando Dolores mandou parar e reunir o grupo.
Com todo o cuidado e atenção e sempre pelo meio do pinhal vamos seguir até encontrar-mos a estrada que vai de Dehesa Mayor para Albuquerque.
Vai ser um caminho longo e difícil mas o pior já passou. Só devemos chegar ao objectivo pela noite dentro. Estejam atentos a tudo o que vos possa parecer estranho, como rastos, árvores cortadas pois o inimigo pode ter deixado pequenos grupos espalhados no perímetro alargado da serra.
Não há conversas daqui em diante.


J.Ariemal


(continua)

sábado, 23 de maio de 2009

Quase Memórias



11 – A retirada



Os dois irmãos estavam a dormitar quando deram pela agitação do grupo.Dois guerrilheiros, que faziam de sentinelas avançadas numa das encostas da serra,acabavam de entrar na gruta.
Segredaram qualquer coisa ao Manuel este levantou-se e foi chamar a Dolores que repousava num recanto. O exército está a começar a subir a serra. E são muitos pois lá no vale estavam paradas 4 camionetas e outros soldados a montarem os morteiros. Não tarda devemos estar a ser atacados, dizem os sentinelas.
Manuel vem comigo e com estes dois camaradas para avaliar-mos a situação, decidiu a mulher.
E lá foram ao ponto de vigia que lhes permitia ver o movimento da tropa. Confirmaram o que os vigias haviam dito, e voltaram ao esconderijo.
A mulher que decididamente comandava a guerrilha deu ordens para reunir o grupo.
A nossa posição deve ter sido comunicada aos fascistas porque estão de facto e montar posições de ataque. Alguém nos denunciou mas isso iremos averiguar mais tarde. Agora é tempo de decisões. Assim e porque não temos capacidade para resistir a um ataque em força vamos activar o programa de retirada que já temos elaborado mas com pequenas alterações.
Dividimo-nos em dois grupos. O Manuel tu comandas o primeiro grupo que será constituído pelo Severino o Pablo o Alberto o Juan o Manolo o Diego e o Perez e com a Mercedes e a Rosário. Pegam nas armas e nas munições e começam a descida por aquele carreiro que está assinalado no mapa. Evita o contacto com o inimigo até se aproximarem da estrada principal. Aí montarás uma emboscada a uma coluna de reabastecimento de modo a que consigas tomar o controlo de uma ou duas viaturas de transporte. Vestem a roupa dos soldados que capturarem e como o Juan e o Alberto sabem conduzir, fazem-se à estrada que segue na direcção de Madrid. No local que te assinalei no mapa viras à direita e tentas alcançar Ciudad Rodrigo. Aí encontrarás forças governamentais a quem se podem juntar para continuarem a lutar. Se seguirem com cuidado e com confiança vão conseguir.
E aos soldados capturados o que fazemos, perguntou um dos homens. Ora os que não oferecerem luta desarma-os e prende-os longe da estrada. Coloquem mordaças para que eles não possam gritar por socorro. Em algum momento hão-de ser salvos e quanto mais tarde melhor para vocês. Se forem mouros ou legionários, não tenham piedade executem-nos e escondam os cadáveres.
Eu, o Carlos o Fadagosa e o Ramón partiremos algum tempo depois. Vamos abrigar-nos dos tiros de morteiro e de artilharia e da trincheira que conhecemos responderemos ao fogo inimigo com rajadas da metralhadora de 50 mm. Quando eles sentirem o vigor da nossa reacção procurarão abrigo e aguardarão reforços ou bombardeamentos aéreos.
Nessa altura já nós com estes dois amigos estaremos no trilho de evacuação não sem antes minar e armadilhar as entradas do esconderijo.
Manuel prepara o teu grupo e parte. Voltaremos a encontra-nos, pergunta este? Não sei mas confio em todos e sentirei a vossa falta. Posso garantir que tudo farei para nos reunir-mos na defesa de Madrid. Será aí que se vai decidir esta maldita guerra.


J.Ariemal


(continua)





quinta-feira, 21 de maio de 2009

Quase Memórias




10 - Dolores


O guia chegou-se perto deles e por sinais fê-los levantar e caminhar na direcção da gruta. Era escuro mas pouco a pouco os olhos foram-se habituando àquela meia luz e puderam olhar e ver as pessoas que ali se encontravam.
Não seriam mais de seis ou sete e vestidos como os pastores. Respiraram de alívio. Do mal o menos estes devem ser guerrilheiros e não nos devem fazer mal.
O silêncio foi quebrado quando uma voz de mulher chama o guia e lhe diz. Vai chamar o Manuel.
Este era um homem de estatura meã, típico dos pastores da zona de fronteira, com safões e casacão de pele de ovelha e com uma espingarda caçadeira à tiracolo. Olhou para os dois irmãos e disse num português arrevesado. Dolores, estes dois devem ser do outro lado da fronteira e andam no contrabando.
Então a mulher levantou-se do local onde se encontrava sentada, pegou num toco de vela aceso, aproximou-se dos irmãos e olhou-os com atenção.
Deves ter razão, mas temos de saber o que andam a fazer por estes lados porque isto não é caminho de contrabandistas. Manuel tu ficas aqui enquanto esses dois nos vão contar ao que vêm e que querem e como aqui chegaram. Se houver algo que te pareça mentira, avisas. Mas primeiro e não vá o diabo tecê-las revista-os e abre os sacos que trazem. O Manuel revistou as roupas, encontrou apenas as notas molhadas escondidas no forro dos casacos,abriu os sacos e espalhou o seu recheio no chão. E deles só saíram dois bocados de pão e queijo bolorento embrulhados em farrapos de serapilheira.
Parece que além de cansados devem estar mortos de fome e de medo. Diz para se sentarem e comerem da nossa comida e depois quero que me contem tudo, principalmente porque trazem escondido o dinheiro e onde e como o arranjaram.
E assim fizeram. Falaram do disfarce do contrabando e do verdadeiro objectivo da viagem. Contaram o encontro com o Manolo, as indicações recebidas que estavam certos eram uma mentira, o caminho que seguiram até serem encontrados. Falaram do frio e da fome porque passaram na viagem e o desgosto que sentiam por não terem conseguido encontrar as crianças que a família procurava.
Fizeram uma pausa. Baixaram a cabeça em sinal de desânimo e uma lágrima furtiva escorreu pela face curtida daqueles dois homens.
A mulher ouviu com atenção e perguntou, e agora o que tencionam fazer?
Por muito que nos custe queremos voltar para casa, para junto da família que não vemos há mais de três dias.
Quer dizer que vão esquecer a promessa que fizeram ao vosso amigo?
Isso é o que mais nos custa mas na verdade não temos como continuar a procura pois depois de tantas voltas, já nem o caminho para casa somos capazes de encontrar.
E se eu os ajudar a encontrar as crianças? Vocês estão na disposição de fazer mais algum sacrifício e até de correrem riscos?
O António olhou para o irmão, ergueu os ombros e com um novo brilho nos olhos disse Sim, estamos.
A mulher fixa o olhar no vazio e falando com a voz sumida diz. O meu nome é Dolores.Também eu perdi os meus Pais o meu marido e dois filhos. Sei o que isso é. Fui professora e ensinei muitos camponeses a ler e a escrever. Isso traçou o meu destino. Tinha de ser morta. Fugi, ajudada por amigos e as tropas do tércio vingaram-se chacinando os meus familiares
Com este pequeno grupo escondemo-nos na serra e daqui continuamos a luta contra os fascistas do Franco. Vamos fazendo umas emboscadas, aqui e ali, atacando pelotões da tropa e da guarda civil sempre que reunimos informações que nos dêm a vantagem da surpresa. De vez em quando descemos em grupo de dois ou três a uma das aldeias mais próximas para arranjar comida e informações. Armas não nos faltam e munições também não.
Temos um aliado muito forte que é a nossa vontade de resistir e esta serra inóspita dá-nos refúgio. Mas sabemos que os franquistas sabem onde nos encontramos pelo que só aqui nos manteremos enquanto houver segurança. Isolados não conseguiremos nada a não ser incomodar o inimigo e por isso temos como objectivo romper as linhas e juntar-mo-nos aos nossos camaradas na defesa de Madrid.
Nós suspeitamos que o Manolo a que vocês se referiram é um informador e que já enganou muita gente. Por medo ou convicção alguns soldados que desertaram para se juntar aos guerrilheiros foram atraídos por ele a uma emboscada e nunca mais deles soubemos.
Eu sou natural de Benavente. Quando da minha última sortida à povoação, estadia bem curta porque ela estava cheia de legionários, encontrei a minha irmã que me disse ter recolhido duas crianças qua andavam na rua sem eira nem beira. Devem ser sem dúvida as crianças que vocês procuram.
Posso, portanto, ajudar-vos mas têm de confiar em mim e fazer as coisas como eu disser.
Acenaram que sim.
J.Ariemal
(continua)